Mesquita

Mesquita, António Pedro (1995), Reler Platão. Ensaio sobre a teoria das ideias. Imprensa Nacional, Portugal.

Mesquita: ti esti / idea

Tudo radica na consideração: só há saber, diz Sócrates, quando se sabe o que é; mas, se assim é, também só há, em particular, saber das coisas belas (e. g., dos belos discursos) quando se sabe o que é o belo (287be). Ora, a esta luz, torna-se necessário, como vimos, introduzir uma distinção entre «o que é» em sentido próprio (e. g., o que é propriamente belo, o que é o próprio belo, auto to kalon) e aquilo em que isso apenas se apresenta, sem ser propriamente (as coisas belas, panta ta kala, enquanto são belas: 287d, 288a, 292cd).

agnoia

O «o que é», como pergunta e como resposta, como questão orientadora do saber e como sua caracterização última, assume pois uma absoluta radicalidade no pensamento platônico, radicalidade que não é só, como vimos, de exigência especulativa, mas também, e talvez principalmente, de coerência e de sentido para a vida.

Mesquita: didonai logon (dar razão)

A noção de didonai logon havia já sido encontrada, com uma ocorrência bastante frequente, no âmbito dos diálogos do primeiro período. Voltamos agora a encontrá-la, ainda com muita frequência, mas com um sentido mais determinado, no quadro dos diálogos do segundo e do terceiro períodos.

A sua emergência dá-se sempre no contexto de uma explicitação do saber, frequentemente associada ao tema das ideias e por vezes - é o que agora sublinhamos- ligada a um entendimento diferencial das ideias ou do seu saber.

Mesquita: Saber/Ser

A pesquisa socrática é assim, em sentido próprio, uma «experimentação». E, tal como modernamente o investigador interroga a experiência com vista a conhecer o que ela dá a experimentar, assim Sócrates interroga, agora literalmente, a experiência dos experimentados, para que deste modo possa participar do seu saber.

Mesquita: idea/eidos

A hipertrofia dos termos idea e eidos, como marcas designativas de toda a ontologia platônica, é aliás, muito provavelmente, de origem aristotélica (cf. Metaph., A, 5, 987b7-8, b32), embora possa ser reconduzida a algumas formulações clássicas do próprio Platão: veja-se o Timeu 51d: «... esses [entes] inteiramente por si mesmos são as eide, que nós não atingimos pelos sentidos, mas apenas pelo intelecto»; ou o Fedro 249b: «Pois é necessário que o homem compreenda segundo o que é chamado eidos ...»; assim também no Timeu 51c: «...

Mesquita: Teoria das Ideias

Ora, o ponto de vista platônico tem um nome e pode ser designado: uno e múltiplo. A perspectiva própria do pensamento platônico é, pois, a da relação, ou melhor, de uma certa relação, entre unidade e multiplicidade, que a lógica que tradicionalmente sobre ela incide, de matriz aristotélica, não pode apreender sem imediatamente alterar.

eidenai

I) Gr. Eidénai, theôreîn, espístasthai

1) eidénai: conhecer, saber. Raiz *(w)eid-

Sanscr. védah (conhecimento), vêtti (ele sabe), vid-ma (nós sabemos), etc.

Raiz no grau e: (w)eidénai, (w)eidos

Raiz no grau o: (w)oida

Raiz no grau zero: (w)idem, (w)idéa, (w)ístôr (beócio: o que sabe).

Em latim, só no grau zero: vidêre (improdutivo na área semântica de «conhecimento»). Em alemão: wissen Em celta: druides

ti esti

ti ésti: o que é? aquilo que é, essência

Aquilo que responde à questão de «o que é?» por revelação da essência (ousia) da coisa, i. é, por definição (horos) através do genos e diaphora (Aristóteles, Top. VIII, 153a); ver ousia. [Termos Filosóficos Gregos, F. E. Peters]