Mattéi

Jean-François é professor universitário e pesquisador francês dedicado à tradição filosófica grega, com inú livros publicados, entre os quais se destaca "L'Étranger et le simulcare", "L'ordre du monde" e "Platon et le miroir du mythe".

Mattéi: O Mito das Raças em Hesíodo

O mito das raças segue o mito de Pandora no início de Dos Trabalhos de dos Dias (v. 109-201) encadeando cinco episódios aparentemente articulados de maneira clara e coerente. No tempo de Kronos, os Imortais do Olímpio criaram uma primeira raça de homens mortais em ouro que viviam como deuses, desnudados de toda preocupação, pois não conheciam a velhice; a morte os levava docemente em seu sono. A terra produzia então colheitas generosas, sem esforço, e cada um vivia na paz entre numerosos bens.

Kronos

Kronos é o obscuro poder que nascido do casamento ininterrupto de Urano e de Gaia, vai separar de um golpe Terra e Céu e lançar o membro divino na maré do mar. A castração do Céu, que não se estenderá mais sobre uma esposa da qual recusava os filhos no seio, permite a abertura do espaço e do nascimento do tempo. Depois da separação do Céu e da Terra, as forças titanescas da natureza saem da indistinção subterrânea para vir ao grande dia e engendrar novas linhagens.

temenos

Cassirer lembra que o grego temenos (latim templum, sobre a raíz tem, cortar) designa essencialmente o que cortado no "tempo" (latim tempus) está delimitado no espaço pela vara da augura.

Hermann Usener estabeleceu, em aproximando o temenos e o tempus, que a divisão mítica do espaço em regiões era paralela à divisão do tempo em períodos a partir de um mesmo esquema cósmico distribuído em forma de cruz:

artios-perissos

É o número ímpar (perissos) que faz aparecer o "limite" (peras) compreendido como princípio de acabamento e de determinação, aí onde o número par (artios) desvela o princípio de indeterminação e de inacabamento do universo. O ímpar, considerado como "macho", não pode ser dividido em duas partes iguais, logo se submeter ao par, número "fêmea", posto que um número ímpar dividido por dois dá um "resto" (perissos) que não é um inteiro (1/2). Pode-se em revanche o decompôr em dois números iguais de um lado e de outro de uma unidade central: assim 3 = 1 + 1 + 1; 5 = 2 + 1 + 2, etc.

metron

Helios não ultrapassará as medidas (metra). Ou então as Eríneas, ajudantes de Justiça (Dike), certamente o encontrarão.

chaos

À plenitude da chora, na qual a coisa tem lugar, responde a vacuidade primitiva do caos. O termo aparece pela primeira vez na Teogonia de Hesíodo, antes de ser retomado por Aristófanes e Platão, com o discurso de Fedro no Banquete. Não remete no poeta a um espaço agitado de massas em desordem, mas uma Abertura primitiva por onde o mundo advém. Nenhum epíteto precisa o sentido desta abertura obscura de onde nascerá Gaia, antes de Eros, em seguida Herebos e Nyx. Tudo indica no entanto que Caos ;e um princípio cósmico de diferenciação, talvez acoplado ao abismo indiferenciado do Tártaro.

Poros

Advindo da união mítica de Poros e de Penia, o elã amoroso para o saber que encarna a filosofia, sob a égide de Eros, toma a forma racional do casamento de Peras e de Apeiron: à abertura da "passagem" (poros) onde vem passar, errante, a "miséria" (penia), responde a "completude" (peras) da forma que põe um termo, por um tempo, ao "incompletude" da matéria.

Penia

O mito do nascimento de Eros, contado no Banquete, faz aparecer no banquete outra mulher, também não convidada ao banquete de Afrodite. Trata-se de Penia, personificação mesma da Miséria, da Pobreza, que, na noite do nascimento de Afrodite, enquanto os deuses festejavam a vinda da deusa do Amor, vem mendicar algumas migalhas do festim. Vendo Poros, personificação dos Recursos, adormecido pela embriaguez, o filho de Metis (a Rusa, a Sabedoria), Penia, a Miséria, se deita sobre ele, desejosa de desfrutar de uma "senousia", aquela mesma que Agathon esperava em vão de Sócrates.