Político

Diálogo platônico sobre as condições do governante.

POL 293e-297b: Legitimidade do governo sem leis

ESTRANGEIRO — Tua observação, Sócrates, antecipa uma pergunta que eu pretendia fazer: aceitas todas essas reflexões, ou há alguma que te desagrada? Eis, entretanto, o que está claro: a questão que queremos discutir é a de saber se é legítimo um governo sem leis.

SÓCRATES, O JOVEM — Evidentemente.

ESTRANGEIRO — Ora, é claro que, de certo modo, a legislação é função real; entretanto o mais importante não é dar força às leis, mas ao homem real, dotado de prudência. Sabes por quê?

SÓCRATES, O JOVEM — Qual é a tua explicação?

POL 292d-303d: O problema da lei

ESTRANGEIRO — O problema que se apresenta, doravante, é, pois, necessariamente o seguinte: em qual dessas constituições reside a ciência do governo dos homens, a mais difícil e a maior de todas as ciências possíveis de se adquirir? Pois essa é a ciência que é necessário considerar se quisermos saber que rivais devemos afastar do rei competente, concorrentes que pretendem ser políticos, persuadindo a muitos de que o são, embora não o sejam de maneira alguma.

SÓCRATES, O JOVEM — Sim, segundo o que já se demonstrou na discussão, essa separação realmente se impõe.

POL 292a-292d: O saber, princípio do verdadeiro governo

ESTRANGEIRO — E então? Alguma dessas constituições será exata se definirmos simplesmente por estes termos: "um, alguns, muitos — riqueza ou pobreza — opressão ou liberdade — leis escritas ou ausência de leis"?

SÓCRATES, O JOVEM — Nada o impede, realmente.

ESTRANGEIRO — Pensa melhor, atendendo a este ponto de vista.

SÓCRATES, O JOVEM — Qual?

ESTRANGEIRO — O que dissemos de início subsistirá ainda, ou já não estamos mais de acordo?

SÓCRATES, O JOVEM — A que te referes?

ESTRANGEIRO — Que o governo real depende de uma ciência. Creio que o dissemos.

POL 291c-292a: Falsificações do verdadeiro governo

ESTRANGEIRO — É também o que me parece. A propósito, dize-me o seguinte:

SÓCRATES, O JOVEM — Quê?

ESTRANGEIRO — A monarquia não é uma das formas de poder político que conhecemos?

SÓCRATES, O JOVEM — Sim.

ESTRANGEIRO — Além da monarquia poderíamos mencionar, creio, o governo de um pequeno número.

SÓCRATES, O JOVEM — Sem dúvida.

ESTRANGEIRO — E a terceira forma de constituição não é a soberania da massa, a que chamamos democracia?

SÓCRATES, O JOVEM — Perfeitamente.

POL 289d-290e: Artes adjuvantes

ESTRANGEIRO — Prossigamos e examinemos aqueles que restam, abordando-os de perto para ter um conhecimento mais seguro.

SÓCRATES, O JOVEM — Façamo-lo.

ESTRANGEIRO — Do nosso ponto de vista os mais ínfimos entre os servidores se nos apresentam com uma função e um caráter absolutamente contrários ao que imaginamos.

SÓCRATES, O JOVEM — Quem são eles?

ESTRANGEIRO — Aqueles que compramos ou adquirimos de modo semelhante. Devemos, sem dúvida, chamá-los escravos, e não têm a mínima participação na arte real.

SÓCRATES, O JOVEM — Sem dúvida alguma.

POL 289a-289d: Retificações e complementos

ESTRANGEIRO — Assim, quase todos os bens suscetíveis de serem possuídos, salvo os animais domésticos, estão incluídos nestes sete gêneros. Vê: era justo mencionar em primeiro lugar a espécie primitiva; a seguir o instrumento, o vasilhame, o veículo, o abrigo, o divertimento, o alimento. Omitimos coisas que, dada sua pequena importância, ficaram esquecidas e que poderão ser incluídas em qualquer destas espécies, tais como a arte de cunhar moedas, selos e estampas.

POL 287d-289d: As sete artes

ESTRANGEIRO — Realmente é difícil a tarefa que nos propusemos, procurando distinguir este gênero dos demais, pois não há nada que não se possa com alguma razão chamar de instrumento disto ou daquilo. Há, entretanto, entre os objetos que possui a cidade, uma espécie que é necessário caracterizar de outro modo.

SÓCRATES, O JOVEM — Como?

ESTRANGEIRO — Suas propriedades são diferentes. Pois ela não é fabricada como instrumento, para servir à produção de qualquer coisa, mas para conservá-la, uma vez produzida.

SÓCRATES, O JOVEM — A que te referes?