me on

gr. mê on: não-ser. Latim: nihil, nihilum. Termo inaugurado por Parmênides e depois confrontado por Górgias, Platão e Aristóteles com a noção de ser, ón (v. essa palavra). Também se encontra ouk ón.

Sof 263d-264b: O Não-ser no juízo e na imaginação

Estrangeiro – Mas como! Pensamento, opinião e imaginação: não é evidente, de início, que todos esses gêneros ocorrem em nossa alma como verdadeiros e como falsos?

Teeteto – De que jeito?

Estrangeiro – É o que perceberás facilmente, logo que determinares o que todos eles são e em uns que diferem uns dos outros.

Teeteto – Basta que te expliques melhor.

Estrangeiro – Ora bem, pensamento e discurso são uma e a mesma coisa, com diferença de que o diálogo interior da alma consigo mesma que se processa em silêncio recebeu o nome de pensamento.

Sof 260b-263d: Lugar do Não-ser no juízo e no discurso

Estrangeiro – Se te dispuseres a acompanhar-me, talvez compreendas sem dificuldade.

Teeteto – De que jeito?

Estrangeiro – O não-ser se nos revelou como um gênero entre os demais, distribuído entre todos os seres.

Teeteto – Certo.

Estrangeiro – Passemos, então, a considerar se ele se mistura com a opinião e com o discurso.

Teeteto – Por quê?

Sof 259b-264b: O Não-ser no discurso

Estrangeiro – Quem não acreditar nessas oposições, estude o assunto por conta própria e apresente explicação melhor; e no caso de imaginar que excogitou algo difícil e de encontrar prazer em puxar os argumentos em todos os sentidos, só direi que perdeu tempo com o que nada vale, conforme o demonstrou a presente exposição, pois tudo aquilo nem é engenhoso nem difícil de encontrar. Árduo e nobre é apenas o seguinte.

Teeteto – Que será?

Sof 258b-259b: O desprezo de Parmênides

Estrangeiro – Não percebeste que com nossa rebeldia ultrapassamos de muito a proibição de Parmênides?

Teeteto – Como assim?

Estrangeiro – Violamos o limite por ele interditado, e em nossa investigação lhe mostramos mais coisas do que o que ele próprio admitira.

Teeteto – De que jeito?

Estrangeiro – Algures ele diz:

Nunca possível ser-te-á compreender que o não-ser possa ser
Desse caminho conserva afastado o intelecto curioso.

Teeteto – Sim, foi isso mesmo que ele disse.

Sof 257b-258b: O Outro, não ser do Ser, mas não uma negação absoluta

Estrangeiro – Consideremos também o seguinte.

Teeteto – Que será?

Estrangeiro – Sempre que nos referimos ao não-ser, não temos em vista, como parece, o oposto do ser, porém algo diferente.

Teeteto – De que jeito?

Estrangeiro – Quando falamos de algo não grande, achas que nos referimos mais ao pequeno do que ao igual?

Teeteto – Como assim?

Sof 256d-259b: O Outro, não-ser do Ser

Estrangeiro – A esse modo, com toda a segurança, não é ser o movimento, como também é ser, visto participar da existência.

Teeteto – Certíssimo.

Estrangeiro – De onde fica também certo, necessariamente, que o não-ser está no movimento e em todos os gêneros, pois a natureza do outro, entrando em tudo o mais, deixa todos diferentes do ser, isto é, como não- ser, de forma que, sob esse aspecto, poderemos, com todo o direito, denominá-los não existentes, e o inverso: afirmar que são e existem, visto participarem da existência.

Teeteto – É possível.

Sof 241b-242b: Necessidade de criticar a negação do Não-ser

Estrangeiro – Bem lembrado. Porém passemos a considerar o que será preciso fazer com o sofista. Se insistirmos em procurá-lo na classe dos falsos obreiros e charlatães, bem vês como as dificuldades e as objeções nos surgem aos montes.

Teeteto – Sem dúvida; em grande quantidade, mesmo.

Estrangeiro – E note-se que só nos ocupamos com uma parte mínima, porque elas são, a bem dizer, infinitas.

Teeteto – Se é assim, nunca apanharemos o sofista.

Estrangeiro – Como! Vamos desistir do nosso propósito, só por comodidade?

Sof 239b-241b: O Não-ser e o Sofista

Estrangeiro – Sendo assim, como acreditar no que eu falo? Pois tanto agora como antes, redondamente na tentativa de refutar o não-ser. Vamos procuremo-lo agora em ti.

Teeteto – Que queres dizer com isso?

Estrangeiro – Prossigamos! Com a galhardia própria dos moços, esforça-te ao máximo, e sem atribuir ao não-ser nem existência nem unidade nem pluralidade numérica, procura dizer algo razoável a respeito do não-ser.

Teeteto – Precisava ser temerário além da conta para tentar alguma coisa, depois de ver o que aconteceu contigo.

Sof 238a-239a: Impossibilidade de conceber o Não-ser

Estrangeiro – É cedo para cantar vitoria, meu bem-aventurado amigo, porque ainda falta considerar a maior e a primeira das dificuldades, que diz respeito ao próprio começo da questão.

Teeteto – Que queres dizer com isso? Fala sem omitir nada.

Estrangeiro – A qualquer ser pode-se acrescentar outro ser.

Teeteto – Como não?

Estrangeiro – E poderemos também conceder que é possível acrescentar algum ser ao não-ser?

Teeteto – Como o poderíamos?

Estrangeiro – Classificaremos entre os seres os números em geral? :

Sof 236d-242b: O problema do erro e o do Não-Ser

Estrangeiro – O fato, meu bem-aventurado amigo, é que nos metemos numa investigação espinhosíssima. Este manifestar-se e este parecer sem que o seja, o poder dizer-se o que não é verdade, sempre foi problema inextricável, assim na antiguidade como no nosso tempo. Pois afirmar que é realmente possível falar ou opinar em falso sem deixar-se colher de nenhum modo nas malhas da contradição, é o que é difícil, Teeteto, de compreender.

Teeteto – Por quê?