Platão e a Academia

Excertos do livro de Gaston Maire, "Platon", trad. para português de Rui Pacheco.

Libertado nestas condições (v. Viagens de Platão), Platão regressa a Atenas em 387. Decide então consagrar-se à educação da juventude para a preparar com vista à participação nos assuntos da cidade, quando as circunstâncias o permitissem. Assim, compra um ginásio, situado nos arredores do Noroeste de Atenas, perto de Colônia, cidade natal de Sófocles, célebre pelo seu bosque sagrado de oliveiras; a este ginásio chamava-se Academia, talvez em memória de Academo, o herói lendário que revelara aos Dióscoros, Castor e Pólux, que procuravam a sua irmã Helena, o lugar secreto onde Teseu a escondia. A aquisição de um campo contíguo permite a construção de casas de habitação destinadas aos alunos. Assim nasce a ilustre escola que sobrevive ao seu fundador, a Academia. Como todas as instituições deste gênero, esta escola possui salas para aulas, museus e bibliotecas, jardins ornamentados de estátuas de deuses e capelas comemorativas; ela tem estatutos e regulamento. O emprego do tempo concedia provavelmente, à semelhança dos grupos pitagóricos, que tudo leva a crer terem servido de modelo a Platão, um largo espaço à vida em comum, nomeadamente no que diz respeito às refeições, regidas por um ritual e um cerimonial precisos. Por outro lado, pode-se ter uma ideia suficientemente clara da natureza do ensino ministrado e dos métodos empregados. O corpo docente trabalhava decerto sob a direção geral do chefe da escola ou escolarca; mas cada um mantinha a sua autonomia de espírito: entre os primeiros mestres podem citar-se, para a Filosofia pura, Espeusipo, Xenócrates e Heraclides do Ponto, para as Matemáticas, Eudóxio de Cnido e Teeteto e, para a Retórica, talvez Aristóteles. O ensino, se porventura dava ainda um lugar — aliás impossível de determinar— à aprendizagem dos métodos e procedimentos da eloquência cara aos Sofistas, afastava-se deles pela sua inspiração fundamental, que o orientava já não no sentido de uma técnica a adquirir mas de uma cultura a desenvolver, quer dizer, no sentido da procura da verdade; por conseguinte, o lugar central era ocupado pela filosofia, de que era difícil separar a matemática, pelo que Platão teria feito inscrever no frontão da Academia o seguinte aviso: «Que não entre aqui quem não é geômetra.» Falta apontar o que podiam ter sido os métodos de ensino utilizados: era dado lugar aos métodos tradicionais da lição ou exposição didática oral, já que se encontram o seu eco e vestígios nas obras de Aristóteles; era igualmente reservado um lugar aos livros, seja como meios auxiliares seja como meios destinados a atingir um público mais extenso; no entanto, se se recorda a influência exercida por Sócrates sobre Platão, se se tem em conta as críticas severas formuladas por este último sobre o escrito — críticas que mais tarde voltaremos a abordar —, há o direito de supor que o método por excelência, ao qual se recorria com maior frequência, era o diálogo, herdado de Sócrates, implicando a procura em comum, a comunicação ativa do Mestre e dos discípulos; esta suposição é tanto mais exata quanto, para Platão, a ciência não é a possessão impossível da verdade mas a aproximação progressiva a esta verdade transcendente e a agudeza de espírito que esta aproximação exige e desenvolve.

Durante este primeiro período de atividade como chefe da Academia, período que durou uma vintena de anos, Platão escreveu provavelmente o Fédon, O Banquete, Fedro, Íon, Menéxeno, Eutidemo, Crátilo e o começo de A República (obra de longo fôlego cuja redação foi sem dúvida alguma muito lenta, sem que seja possível fixar datas precisas, no estado atual dos estudos platônicos).