Amor filho de Pobreza e Expediente

Submitted by mccastro on Sun, 06/05/2012 - 08:38

O Sócrates do Banquete (203 b-c) conta o relato que lhe fez a sacerdotisa Diotima, do dia que os deuses do Olimpo celebrando o nascimento de Afrodite, a dama Pobreza (Penia) compartilhou alguns restos de néctar com o vagabundo Expediente (Poros 1 De seu furtivo casamento nasceu este Eros que Plotino descreve como um insaciável semideus, "razão advinda nisto que não é razão" (Tratado 50) aspiração sem repouso para impossíveis satisfações, gosto de uma vagabundagem que no entanto pode conduzir o amante nas vias do que Platão (Filebo 30 c-d) denominava a "Alma real de Zeus", muito próximo da Inteligência para que se possa descrevê-la como já repousando no jardim dos deuses (III,5 9).

A este nível, pelo menos filho adotivo da Afrodite "celeste", nascida ela mesma de Uranos ou de Cronos 2 , figura desta Alma, que por intermédio da Inteligência, procede do Princípio único de toda fecundidade, não é certamente o filho de Pobreza, "sem leito, sem sapatos e sem casa" (Eneada-III-5), todas as fórmulas vindas do Fedro e do Banquete, mas todavia o amante deste Psique que, por uma espécie de sublime incesto, se une a seu genitor para se tornar ela mesma a Afrodite celeste. Relendo o grande Tratado-8 não esqueçamos no entanto que esta ascensão erótica permanece frágil, constantemente ameaçada de quedas (Eneada-VI, 9, 9).

  • 1Significando a princípio passagem, meio de acesso, esta palavra designa em seguida uma espécie de "jeitinho").
  • 2Plotino se preocupa tão pouco de uma mitologia tomada por puro símbolo que se vê aqui, e muitas vezes, hesitar entre a pessoa do pai e aquela do avô.