Origem

Submitted by mccastro on Tue, 05/06/2012 - 11:54

O «originado» pode considerar-se sincrônica ou diacronicamente: mas a «origem» do originado, só ucronicamente. A origem preside tanto ao início, quanto ao meio e ao término do originado que nos apareça via processionis. Quer dizer, a origem e o originado não podem situar-se no mesmo plano ou nível de realidade. Onde está a origem de uma linha traçada neste quadro? Traçada horizontalmente da esquerda para a direita, no primeiro ponto à esquerda? Ou no movimento do braço que a traçou? Não se confunda «início» (que pertence ao processo) com «origem» (que ou permanece fora dele ou é inerente a todo ele)!

Por óbvia consequência: se compararmos a história da filosofia (em seu todo ou em alguma de suas partes, como, por exemplo, de que não queremos desapegar-nos, a metafísica do mundo grego ou helenizado) à linha traçada, por muito complexa que se nos apresente, se procurarmos a sua origem, devemos assegurar-nos de que ela tem de estar presente em todos os seus pontos e, por conseguinte, que se torna extremamente problemático o falar em momentos de ascensão e decadência, e, sobretudo, o fixar um ponto de referência privilegiado - precisamente aquilo que se faz desdenhando do inábil balbuceio dos pré-socráticos ou da inútil prolixidade dos neoplatônicos. Assim procedendo, nunca se passará do «originado» à «origem». Mas a origem é o que mais importa...

Procedimento, aliás, muito compreensível! A razão (dianoia, intelecto lógico-discursivo) move-se a seu bel-prazer, muito à sua vontade, decompondo e recompondo a trajetória do originado em segmentos mais ou menos arbitrariamente afetados de sinal positivo ou negativo. Mas não há nem a mais ténue sombra de qualquer hiato, no movimento-origem do traçado. Ou, se tivermos de admitir que algum existe, convençamo-nos, de uma vez para sempre, de que, aí, um mito deu lugar a outro. Porém, até hoje, não lemos «história» que nos persuada de que não decorram nela, paralelamente, a codificação mítica e a codificação metafísica do que acabamos por denominar de «mistério do horizonte». (Eudoro de Sousa, "Sempre o mesmo acerca do mesmo")