dialektike

VIDE Bernard SUZANNE : DIA

dialektikê: dialética


Em Platão, «dialéctica», ou aponta simplesmente para a arte de dialogar, ou para o método de ascensão à Ideia do Bem, que se efetua por divisão e composição de conceitos. É, portanto, evidente que, em qualquer das duas acepções da palavra, a dialética platônica nada tem que ver com Heráclito. (Eudoro de Sousa, "Sempre o mesmo acerca do mesmo")
1. Segundo o testemunho de Aristóteles a dialética foi uma invenção de Zenão de Eleia (D. L. ix, 25), provavelmente para servir de apoio às antinomias hipotéticas de Parmênides (Platão, Parm. 128c). Mas aquilo que era uma espécie de polêmica verbal (o que Platão chamaria «erística» ou disputa; ver Soph. 224e-226a, Republica 499a, Fedro, 261c) para os eleatas, foi transformado por Platão num método filosófico superior. O elo de ligação foi sem dúvida a técnica socrática da pergunta e resposta em busca de definições éticas (ver Platão, Fédon 75d, 78d; Xenofonte, Mem. I, 1, 16; e elenchos), uma técnica que Platão explicitamente descreve como dialética (Crát. 390c). Com a hipostasiação das definições socráticas nos eide platônicos (talvez refletida na transição do Fédon 99d-100a para ibid. 101d; ver eidos) o papel da dialética torna-se central e coroa o curriculum ideal descrito na República: depois de dez anos dedicado à matemática o futuro filósofo dedicará os anos entre os trinta e os trinta e cinco ao estudo da dialética (Republica 531d-534e, 537b-539e).

2. O que é a dialética? A pergunta não é fácil visto que Platão, como de costume, pensou nela de várias maneiras. Há o ponto de vista do Fédon e da República que considera a dialética como uma ascensão progressivamente mais sinóptica, através de uma série de «posições» (hypotheseis; a teoria das Formas é uma delas no Fédon 100b), até que se alcança uma suprema (Fédon 101d, Republica 511e). Na República, onde o contexto da discussão é confessadamente moral, este «princípio an-hipotético» é identificado com o bom em si (auto to agathon; Republica 532 a-b) que inclui em si próprio todas as hipóteses inferiores (ibid. 533c-d).

3. Se a dialética do Fédon e da República pode ser descrita como «sinóptica» (Republica 537c), a que surge do Fedro em diante é decididamente «diacrítica» (ver Soph. 226c, 253d).

É apresentada no Fedro 265c-266b (confrontar Soph. 253d-e) e consiste em dois processos diferentes, «reunião» (synagoge) e «divisão» (diairesis), sendo o segundo processo em particular amplamente ilustrado em diálogos subsequentes tais como: o Sofista, Político e Filebo. A dialética primitiva aparecia semelhante às operações do eros, mas aqui somos transportados para um mundo quase aristotélico de classificação através da divisão: a ascensão foi substituída pela descida. Enquanto é manifesto que aqui é ainda com realidades ontológicas que lidamos, é de igual modo evidente que foi dado um passo crucial ao longo da estrada que conduz a uma lógica conceptual. O termo da diairesis é aquele eidos que se situa imediatamente acima dos particulares sensíveis (Soph. 229d), e, enquanto este é «realmente real» (ontos on) no esquema platônico das coisas, é significativo que o mesmo processo, diairesis, termina em Aristóteles no atomon eidos, a ínfima species numa descida lógica (De anima II, 414b); ver diairesis.

4. Aristóteles abandona o papel ontológico central dado à dialética na República de Platão; em vez disso, está interessado nas operações do espírito que culminam na demonstração (apodeixis). A dialética não é estrita demonstração (Anal. pr. I, 24ajb; Top. I, 100a-b), pois não começa a partir das premissas que são verdadeiras e primárias, mas sim a partir das opiniões (endoxa) que são aceites pela maioria ou pelos sábios. A ironia desta distinção está em que o próprio processo de Aristóteles consiste frequentemente naquilo que ele descreveu como «dialético» (ver endoxon). Mas como teorizador, Aristóteles tem pouco amor pela dialética (of. De anima r, 403a; Top. 105b), e sugere na Metafísica 987b que ela, ou melhor a confusão entre o pensamento e a realidade, pode ter sido uma destruição feita por Platão.

5. Para os estoicos a dialética é reduzida à lógica, i. e., ao estudo das formas do discurso externo e interno (D. L. VII, 43; cf. logos, onoma), enquanto que simultaneamente alargam o seu campo até abarcar a ótica e mesmo a física (ibid. VII, 46, 83). Daqui resulta que a lógica já não é um instrumento (organon) da filosofia tal como foi compreendida pela escola peripatética (a reunião dos tratados lógicos num Organon é pós-aristotélica, embora Aristóteles certamente previsse o papel propedêutico dos Analíticos; cf. Metafísica 1005b).

6. A reabilitação da dialética no sentido platônico foi levada a cabo por Plotino (Enéadas I, 3). É uma vez mais, como na República, uma aproximação cognitiva dos inteligíveis (ver noesis), mas com evidentes tonalidades estoicas; a dialética é uma educação para a virtude e assim inclui tanto as ações e os objetos como os noeta. [Termos Filosóficos Gregos, F. E. Peters]


A dialética é o meio, através do diálogo, de conhecer "o que é". Enquanto conhecimento verdadeiro, que se distingue da ignorância como da opinião, ela é sinônimo de filosofia: o filósofo é um dialético. A dialética pode assim ser considerada como a única ciência verdadeira: ela é o conhecimento da realidade. (Luc Brisson)