axioma

Birault, Henri (1978), Heidegger et la expérience de la pensée. Gallimard, Paris. (pg. 132-133)

O valor (latim valere) designa a princípio a valentia e a potência, a saúde e a integridade de uma coisa ou de um ser. O valor é ainda livre de toda avaliação, de toda estimação: ele é pensado em termos de ser ou de perfeição.

Valor sem avaliação, estima sem estimação, é o que diz também e melhor ainda a palavra grega axioma. “Destruição” heideggeriana da concepção moderna “axiomática” ou “axiológica” da noção de valor. “O grego axioma, lembra Heidegger, é derivado de axion, estimo algo. Mas o que quer dizer “estimar algo”? Hoje em dia, rapidamente respondemos: estimar, é avaliar algo, apreciá-lo em seu valor. Mas queremos saber o que os gregos entendiam por “estimar”, axioun. Precisamos meditar sobre o que poderia significar, pensado pelos gregos, “estimar”; pois os gregos não conheciam nenhuma noção de avaliação, nem o conceito de valor” (Heidegger, Le principe de la raison, 1962). À origem os axiomas não eram portanto os koinai ennoiai de que fala frequentemente Platão: o que traduzimos por “representações geralmente admitidas”. Eram menos ainda o que Leibniz, fiel a esta tradição, denominará axiomas, com esta diferença essencial toda vez que ele interpretará como proposições o que para Platão se situava ainda na ordem das noções.

Logo vê-se como o valor foi então estranho a tudo o que chamamos hoje em dia os valores. O valor era então aparentado ao ser e não ao dever-ser. O valor era livre de toda avaliação subjetiva, o valor era em si mesmo “considerável”, quer dizer o que demandava consideração, a respeito e ao olhar. Houve no entanto um tempo – e este tempo, poder-se-á lamentá-lo, mas não se poderá jamais ressuscitá-lo – onde o valor valia por ele mesma, onde o valor era ainda plenamente válido.

A história do conceito de valor comporta assim uma pré-história que continua sob nossa própria história. Que algo da significação “arcaica” do valor fala, ou parece ainda falar, por trás de nossa história, não é surpreendente, pois é preciso que a história venha um dia a se alinhar do lado da geografia e da geologia... Mas saiamos desta pré-história para entrar na história ocidental e metafísica do valor e do pensamento segundo os valores. Onde encontraremos a prefiguração decisiva disto que chamamos hoje em dia o valor e os valores? Reconhece-se que este começo deve ser buscado do lado de Platão e, mais precisamente ainda, do lado da teoria platônica do Bem. Isso não significa de todo que seja necessário interpretar o agathon platônico como um valor. Mas isso significa que já deve haver na ideia do Bem tal qual a entende Platão algo que muito tempo depois vai poder se tornar o valor tal qual o entendemos hoje em dia, quer dizer o valor pensado em termos de ideal ou de dever-ser, o valor tributário disto que uma lógica já um pouco em desuso denomina um “juízo de valor”para opô-la ao “juízo de realidade”, um valor, enfim, inteiramente dependente de um ato de avaliação ou de criação que alguns gostariam de acordar a uma liberdade ela mesma declarada “inestimável”, porque ela está na origem de todos os valores, porque ela constitui o valor de todos os valores.