aisthesis

aisthesis: percepção, sensação

1. A percepção é mais um complexo de problemas do que uma simples questão. Entra na filosofia como uma tentativa, de um modo bastante modesto introduzida pelos primeiros physikoi, para explicar os processos fisiológicos envolvidos na percepção de um objecto. Foi elaborada através duma série de soluções, principalmente em termos de contato, mistura ou penetração dos corpos envolvidos. Havia, por certo, algumas anomalias como, por exemplo, o caso da visão em que o contato estava aparentemente ausente mas a crise primeira e principal não surgiu antes que os graus do conhecimento fossem distinguidos e a percepção dos sentidos fosse separada de outro tipo mais seguro de percepção que pouco ou nada tinha a ver com as realidades ou processos sensíveis. A aisthesis achou-se envolvida nas dúvidas epistemológicas levantadas por Heraclito e Parmênides e excluída de qualquer genuíno acesso à verdade (ver aletheia, doxa, episteme).

2. Surgiram também outras transformações. A teoria da partícula ou somática em que se baseava a teoria da percepção dos physikoi começou a ser substituída por teorias sobre a mudança que tomaram como ponto de partida uma nova visão dinâmica dos «poderes» das coisas (ver dynamis e gênesis). Aristóteles, que foi um dinamista, incorporou na sua metafísica a análise da mudança nos seres sensíveis e pela primeira vez a aisthesis tornou-se um problema filosófico bem como fisiológico.

3. Uma terceira alteração importante manifestou-se pela crença crescente na natureza incorpórea da alma (psyche), o princípio de vida nos seres e a fonte das suas atividades sensitivas. Qual era pois a relação geral entre a alma imaterial e o corpo material e a relação específica entre aquela parte ou faculdade da alma conhecida por aisthesis e aquela parte do corpo que ela usava, o seu organon? O que fora outrora um simples contato entre corpos era agora alargado a uma cadeia de causalidade que começava com um corpo percebido e as suas qualidades e passava através de um termo-intermédio (isto ainda no intrincado problema da visão), um órgão dos sentidos e uma faculdade dos sentidos, — para a alma que se tornava, pelo menos para aqueles que defendiam a imaterialidade da alma, incorpórea em certa parte do processo.

4. Finalmente, começando com o ataque de Parmênides à aisthesis e a sua defesa da episteme como única fonte genuína da verdade, já não era possível tratar o pensamento (noesis, phronesis) apenas como uma forma quantitativamente diferente da aisthesis, mas sim como sendo de espécie diferente; e prestou-se atenção crescente tanto à faculdade como ao processo deste tipo superior de percepção (ver noûs, noesis).

5. Estas são pois algumas das complexidades da problemática da aisthesis. A principal autoridade antiga neste assunto, Teofrasto, cujo tratado Sobre os sentidos é a fonte principal daquilo que sabemos das teorias da Antiguidade, prefere abordar a questão dum ponto de vista físico. O parágrafo que abre a sua obra distingue dois tipos de explicação de como se processa a aisthesis. Uma escola baseia-a na semelhança (homoion), a outra na oposição (enantion) do sujeito e da coisa conhecida. O primeiro grupo inclui — conforme o testemunho de Teofrasto — Parmênides, Empédocles e Platão; o segundo, Anaxágoras e Heráclito.