Sof 233a-236d: O problema da imitação e da ilusão

Estrangeiro – Pergunto se é possível conhecer-se tudo.

Teeteto – Se fosse assim, Estrangeiro, a raça humana seria composta só de eleitos.

Estrangeiro – De que maneira, então, num debate com algum indivíduo atilado poderá o ignorante dizer algo sadio?

Teeteto – Não é possível

Estrangeiro – E qual será o segredo dessa habilidade sofística?

Teeteto – A respeito de quê?

Estrangeiro – Como chegam a convencer os moços de que eles sabem tudo. Pois é evidente que se não discutissem nem lhes deixassem a impressão de bons disputadores, ou, ainda que o fizessem, se esses mesmos dotes de controversistas não lhes granjeassem fama de sábios, conforme acabaste de dizer, de maravilha se decidira alguém a dar-lhes dinheiro só para ter a honra de tornar-se seu discípulo.

Teeteto – Sim, fora difícil.

Estrangeiro – Mas o certo é que todos o fazem.

Teeteto – E de muito bom grado.

Estrangeiro – É que, a meu ver, eles dão a impressão de serem assaz instruídos nos assuntos que discutem.

Teeteto – Como não?

Estrangeiro – Porém não dissemos que discutem a respeito de tudo?

Teeteto – Sim.

Estrangeiro – É assim que eles aparecem aos olhos dos alunos como sábios universais.

Teeteto – Como não?

Estrangeiro – Muito embora não o sejam, pois já vimos não ser possível tal coisa.

Teeteto – Sim, é de todo em todo impossível.

Estrangeiro – Logo, o sofista se nos revelou como possuidor de um conhecimento aparente sobre todos os assuntos, não do verdadeiro conhecimento.

Teeteto – Exato. Quanto disseste talvez seja o que de mais pertinente já se falou a esse respeito.

Estrangeiro – Sendo assim, para melhor ilustração formulemos um exemplo mais claro.

Teeteto – Como será?

Estrangeiro – Deste jeito. Presta atenção, para responderes certo.

Teeteto – A respeito de quê?

Estrangeiro- Se alguém se apresentasse, não como entendido na arte de falar e contestar, mas como capaz de fazer e de executar tudo...

Teeteto – Tudo, como? Que queres dizer com isso?

Estrangeiro – Não entendeste nem o começo do que eu disse. Ao que parece, ignoras o que seja Tudo.

Teeteto – Não entendi, realmente.

Estrangeiro – Ora bem; por Tudo, compreendo eu e tu, e também todos os animais e todas as árvores.

Teeteto – Como assim?

Estrangeiro – Imagino alguém que se declarasse capaz de fazer a mim e a ti e a todas as plantas.

Teeteto – A que vem esse Fazer? De, certo não tens em mente algum lavrador, visto dizeres que ele faz animais.

Estrangeiro – Isso mesmo; e também o mar, o céu, os deuses e tudo o mais. E depois de fazer todas essas coisas num abrir e fechar de olhos, vende-as por alguma tutameia.

Teeteto – Decerto estás brincando.

Estrangeiro – Como! Quando alguém presume saber tudo e se julga capaz de tudo ensinar a outra pessoa por preço de nada e em pouquíssimo tempo, como não acreditar que seja brincadeira?

Teeteto – Sem dúvida.

Estrangeiro – E conheces brincadeira mais graciosa e artística do que a mimética?

Teeteto – Não, de fato, pois exprimes uma infinidade de coisas só com mencionares esse único gênero, o mais vasto, por assim dizer, e mais variado.

Estrangeiro – A esse modo, quando algum indivíduo se gaba de ser capaz de tudo criar por meio de uma única arte, sabemos muito bem que pela imitação de imagens homônimas dos seres, com a arte da pintura, ele é capaz de enganar meninos pouco avisados, só com lhes mostrar de longe seus desenhos, e de convencê-los de que é, realmente, capaz de produzir o que quiser.

Teeteto – Isso mesmo.

Estrangeiro – E então? E a respeito dos discursos, não devemos admitir que há outra arte capaz de iludir os jovens e os que ainda se encontram longe da verdade dos fatos, com lhes enfeitiçar os ouvidos por meio de imagens faladas, deixando-os convencidos de ser verdade o que ele diz e de que o orador é o mais sábio dos homens?

Teeteto – E por que não existiria uma arte desse tipo?

Estrangeiro – Mas a maioria das pessoas, Teeteto, presente a tais discussões, não serão levadas, com a idade e o passar do tempo, quando entrarem em contato mais íntimo com a realidade e a experiência os forçar a sentir a verdade das coisas, a modificar as opiniões então admitidas, de forma que o que era grande lhes pareça pequeno, o que era fácil, difícil, vindo a desmoronar-se em contato com a realidade todas aquelas fantasias de palavras?

Teeteto – Sem dúvida, tanto quanto posso julgar na minha idade, conquanto me inclua no número dos que só apanham muito por cima semelhantes questões.

Estrangeiro – Por isso mesmo, todos nós nos esforçamos, como fazemos desde agora, para te aproximar o mais possível de tudo isso, antes de passares por aquela experiência. Porém, voltando ao sofista, diz-me o seguinte: já não se nos tornou evidente que ele pertence à classe dos ilusionistas, como simples imitador que é das realidades, ou ainda seremos inclinados a acreditar que possui o verdadeiro conhecimento de todos os assuntos em que se revela disputador habilidoso?

Teeteto – Como acreditar nisso, Estrangeiro? Muito pelo contrário, até. De tudo exposto, conclui-se que ele pertence à classe dos que não fazem outra coisa senão brincar.

Estrangeiro – Logo, podemos classificá-lo como imitador ilusionista.

Teeteto – Como não?

Estrangeiro – Então, prossigamos! Nosso trabalho, agora, consistirá em não dar trégua à caça. Já conseguimos envolvê-la quase de todo nas malhas usadas pela dialética em semelhantes casos. De uma coisa, ao menos, não conseguirá escapar.

Teeteto – Qual é?

Estrangeiro – Ser incluído no gênero dos prestidigitadores.

Teeteto – É também o que eu penso a seu respeito.

Estrangeiro – Proponho dividir, com a maior rapidez possível, a arte dos simulacros, e, uma vez firmados nela os pés, no caso de tentar resistir-nos o sofista, sugigá-lo segundo as determinações do edito real da razão, a quem apresentaremos a presa. E se ele se enfiar pelos recessos da arte de imitar, continuaremos a acompanhar-lhe o rastro, com subdividir sem parar a secção a que se acolher, até pormos a mão em cima dele. De um jeito ou de outro, nem ele nem espécie alguma poderá gabar-se de haver escapado dos que sabem tratar com igual proficiência o geral e o particular.

Teeteto – Falaste bem; assim mesmo é que deve-mos proceder.

Estrangeiro – Continuando a aplicar o método da divisão, creio perceber agora duas espécies de arte miméti.ca. Em qual delas se encontra a forma que procuramos, é o que ainda não me considero em condições de decidir.

Teeteto – Porém antes disso declaremos quais são essas espécies.

Estrangeiro – Vejo primeiro a arte de copiar, que consegue os melhores resultados quando o original é reproduzido em suas proporções de comprimento, largura e profundidade, além das cores apropriadas a cada parte, do que resulta uma cópia perfeita.

Teeteto – Como! Não é isso, justamente, que todos os imitadores procuram fazer?

Estrangeiro – Pelo menos, não é o que se verifica com os que modelam ou pintam obras monumentais. Pois se quiserem reproduzir as verdadeiras proporções do belo, sabes muito bem que as partes superiores parecerão menores do que o natural, e maiores as de baixo, por contemplarmos umas de longe e outras de perto.

Teeteto – Sem dúvida.

Estrangeiro – E então? E o que dá a impressão de belo, por ser visto de posição desfavorável, mas que, para quem sabe contemplar essas criações monumentais em nada se assemelha com o modelo que presume imitar, por que nome designaremos? Não merecerá o de simulacro, por apenas parecer, sem ser realmente parecido?

Teeteto – Sem dúvida.

Estrangeiro – E não constitui isso parte considerável tanto da pintura como da arte da imitação em geral?

Teeteto – Como não?

Estrangeiro – E a arte que produz simulacros, não imagens, não seria mais acertado denominá-la ilusória?

Teeteto – Certíssimo.

Estrangeiro – Aí temos, pois, as duas espécies de fabricação de imagens a que me referi: a imitativa e a ilusória.

Teeteto – Certo.

Estrangeiro – A questão que há pouco me deixava em dúvida, sobre sabermos em qual das duas classes devemos incluir o sofista, não me parece ainda muito clara. Nosso homem é, realmente, tão admirável quão difícil de conhecer, pois mais uma vez soube esconder-se com bastante finura numa espécie dura de analisar.

Teeteto – Parece, mesmo.

Estrangeiro – Concordas comigo por convicção ou te deixas levar pelo hábito e pela corrente do discurso, para dares teu assentimento assim tão à ligeira?

Teeteto – De que modo? E por que me fazes semelhante pergunta?