Vernant

Jean-Pierre Vernant, historiador, nasceu em Toulouse em 1914. Iniciou estudos em filosofia em 1937 e, em 1948, passou a dedicar-se à antropologia da Grécia antiga. Foi diretor de estudos na École des Hautes Études a partir de 1958, e criou em 1964 o Centre de Recherches Comparées sur les Sociétés Anciennes. De 1975 a 1984, ocupou, no Collè de France, a cadeira de estudos comparados de religiões antigas. E doutor honoris causa das universidades de Chicago, Bristol, Brno, Nápoles e Oxford e professor honorário no Collège de France. Entre suas obras, destacam-se Les origines de la pensée grecque, Mythe et pensée chez les Grecs, L'individu, la mort, l'amour e L'Univers, les dieux, les hommes.

Filosofia e Ser

Deveremos, em última análise, dizer que a filosofia aplica à noção de Ser imperecível e invisível, herdada da religião uma forma de reflexão racional e positiva, adquirida na prática da moeda? Seria ainda demasiado simples. O Ser de Parmênides não é o reflexo, no pensamento do filósofo, do valor mercantil, não transpõe, pura e simplesmente, no domínio do real, a abstração do signo monetário. O Ser de Parmênides é Uno; e esta unicidade que constitui um dos seus traços essenciais, opõe-no tanto à moeda como à realidade sensível.

Filosofia, Moeda, Valor

Mas não é somente nas estruturas políticas que se inscrevem mudanças mentais análogas às que parecem constituir, desde que se as limite ao único domínio da filosofia, o incompreensível advento de uma razão estranha à história. Sem falar do direito e da arte, uma instituição econômica como a moeda testemunha, no seu desenvolvimento, transformações que não carecem de relações com o nascimento do pensamento racional.

A visão divinatória e a memória

A visão divinatória do poeta inspirado coloca-se sob o signo da deusa Mnemosyne, Memória, mãe das Musas. Memória não confere o poder de invocar recordações individuais, de representar-se a ordem dos acontecimentos dissipados no passado. Daí ao poeta — assim como ao adivinho — o privilégio de ver a realidade imutável e permanente, põe-no em contato com o seu original, do qual o tempo, na sua marcha, só descobre uma ínfima parte aos humanos, e para a ocultar logo após.

A aurora dos "filosofos da natureza"

Função real e ordem cósmica estão já dissociadas em Hesíodo. O combate de Zeus contra Tifão para obter o título de rei dos deuses perdeu o significado cosmogônico. É necessária a ciência de um Cornford para despistar nos ventos que nascem do cadáver de Tifão aqueles que, entranhando-se no interior de Tiamat, separam o céu da terra. Inversamente, a narração da gênese do mundo descreve um processo natural, sem ligação com o rito. Apesar do esforço de delimitação conceitual que aí se manifesta, o pensamento de Hesíodo permanece no entanto mítico.

Versões do Mito de Hesíodo

Em uma primeira versão, a narrativa descreve as aventuras de personagens divinas1: Zeus luta pela soberania contra Tifão, dragão de mil vozes, força de confusão e de desordem. Zeus mata o monstro, cujo cadáver dá nascimento aos ventos que sopram no espaço separando o céu e a terra. Depois, incitado pelos deuses a tomar o poder e o trono dos imortais, Zeus reparte entre eles as "honras".

Do Mito à Razão (I): O Mito Grego

No decurso dos últimos cinquenta anos, a confiança do Ocidente neste monopólio da razão foi todavia abalada. A crise da física e da ciência contemporâneas minou os fundamentos — que se julgavam definitivos — da lógica clássica. O contato com as grandes civilizações espiritualmente diferentes da nossa, como a da Índia e a da China, rompeu os quadros do humanismo tradicional. O Ocidente já não pode hoje considerar o seu pensamento como sendo o pensamento, nem saudar na aurora da filosofia grega o nascer do sol do Espírito.

Do Mito à Razão (III): Filosofia, Política, Moeda e Ser

A solidariedade que constatamos entre o nascimento do filósofo e o aparecimento do cidadão não é para nos surpreender. Na verdade, a cidade realiza no plano das formas sociais, esta separação da natureza e da sociedade que pressupõe, no plano das formas mentais, o exercício de um pensamento racional. Com a Cidade, a ordem política destacou-se da organização cósmica; aparece como uma instituição humana que é objeto de uma indagação inquieta, de uma discussão apaixonada.

Do Mito à Razão (II): O Sábio

Nos alvores da história intelectual da Grécia, entrevê-se toda uma linhagem de personalidades estranhas para as quais Rohde chamou a atenção1. Estas figuras, semilendárias, que pertencem à classe dos videntes estáticos e dos magos purificadores, encarnam o modelo mais antigo do "Sábio". Alguns acham-se estreitamente associados à lenda de Pitágoras, fundador da primeira seita filosófica.