Peters

F.E. Peters é um filósofo americano que publicou um notável glossário de termos filosóficos da tradição grega, traduzido em português: Termos Filosóficos Gregos. Um Léxico Histórico. F. E. Peters, Trad. Beatriz Rodrigues Barbosa, Calouste Gulbenkian, 1983

Peters: genesis (Sócrates-Platão)

9. Que a genesis se tornara o problema central da filosofia pós-parmenidiana é evidente pelas observações de Sócrates no Fédon [[Fedon:96a|96a]], problema que, como o mesmo passo indica, estava a ser tratado em termos de uma procura pelas causas (aitia) e intrigara o jovem Sócrates. Para o próprio Platão a genesis é um problema um tanto secundário à luz da distinção que ele faz entre os eide; o reino do verdadeiro ser (ontos on), e este mundo sensível que é caraterizado pelo devir (Timeu [[Tim:27d|27d-28a]]).

O noûs em Platão

5. Em adição ao noûs imanente nas almas humanas (o logistikon; ver psyche 15, 18) cuja operação é conhecer os eide e governar todas as outras partes da alma (ver noesis 8-9), há, em Platão, um noûs cósmico. Esta razão cósmica emerge no Phil. 26e-27c onde é chamada «o fautor» (demiourgoun, poioun), a «causa da mistura» que é o mundo da genesis. Quase os mesmos termos são aplicados ao demiourgos do Timeu onde o kosmos noetos é chamado a obra do noûs (47e). Ora o noûs é uma propriedade essencial dos deuses partilhada apenas por alguns homens (ibid.

A psyche no Neoplatonismo

29. A tradição platônica tardia, com a sua teoria altamente desenvolvida da sympatheia, espalhou a sugestão platônica da similaridade da psyche aos eide (ver 18 supra e confrontar metaxu 2) para lhe dar uma posição média fortemente enfática entre os noeta e os aistheta (ver Simplício, In De anima I, 2, p. 30, citando Xenócrates; Plutarco, De procr. an.

A psyche em Aristóteles

20. Aristóteles segue esta teoria no De anima I, 406b-407b e põe-lhe objeções baseado numa série de razões, mas principalmente porque pensa que nela Platão reduziu a alma à extensão (megethos). Para a sua maneira de pensar a kinesis teria de ser movimento circular (ver noesis) de tal maneira que Platão, tal como Demócrito, pôs a alma a mover um corpo por estar ela própria em movimento, em vez de ver que a alma move as coisas por ser a causa final delas e por isso pode dizer-se que origina o movimento por meio do pensamento (noesis) ou da escolha (proairesis; ibid. I, 406b).

A psyche em Platão

14. A dívida de Platão à opinião órfico-pitagórica da alma é nitidamente acentuada nos primeiros diálogos. No Cármides 156d-157a estão presentes todos os motivos tradicionais deste «antigo relato» (palaios logos: Fédon 70c; ver Ménon 81a, Ep. VII, 335a): a psyche é uma unidade, imortal (athanathos), sujeita a um renascimento cíclico num corpo que é a fonte de todos os seus males. O fim da vida, e a definição de philosophia, é uma purificação (katharsis) que é uma preparação para a morte e o retorno da alma ao seu habitat natural.

ouranioi

1. A crença na divindade dos corpos celestes é velha entre os Gregos. Na Apologia 26d Sócrates diz que toda a gente acreditava neles, todos, talvez, excepto Anaxágoras que foi julgado sob a acusação de impiedade, parte da qual envolvia a divindade dos ouránioi (Diógenes Laércio II, 12). De facto, a crença era tão antiga que tanto Platão (Crátilo 397c-d, Leis, 885e; confrontar Leis 966d onde a ênfase é algo diferente) como Aristóteles (De phil., frg. 10) reportam os começos da crença do homem em Deus a uma contemplação dos céus.

ouranos

1. O céu é um princípio gerador nas antigas cosmogonias (ver Platão, Timeu 40d-e; Aristóteles, Metafísica 1091b). Aparece primeiro num contexto estritamente filosófico num passo difícil de Anaxímenes (Diels 12A17) onde é representado como pressupondo «inúmeros ouranoi que são deuses». A partir daí a opinião grega sobre o céu como simples entidade é pelo menos parcialmente substituída pela de uma multiplicidade de esferas celestes que envolvem a terra e transportam o sol, a lua e os planetas, enquanto a última esfera exterior transporta as estrelas fixas (ver Aristóteles, De coelo I, 278b).