Descartes

Descartes, René (1596-1650) René Descartes nasceu na França, de família nobre. Aos oito anos, órfão de mãe, é enviado para o colégio dos jesuítas de La Flèche, onde se revela um aluno brilhante. Termina o secundário em 1612, contente com seus mestres, mas descontente consigo mesmo, pois não havia descoberto a Verdade que tanto procurava nos livros. Decide procurá-la no mundo, Viaja muito. Alista-se nas tropas holandesas de Maurício de Nassau (1618). Sob a influência de Beeckmann, entra em contato com a física copernicana. Em seguida, alista-se nas tropas do imperador da Baviera. Para receber a herança da mãe. retorna a Paris, onde frequenta os meios intelectuais. Aconselhado pelo cardeal Bérulle, dedica-se ao estudo da filosofia, com o objetivo de conciliar a nova ciência com as verdades do cristianismo. A fim de evitar problemas coro a Inquisição, vai para a Holanda (1629), onde estuda matemática e física. Escreve muitos livros e cartas. Os mais famosos: O discurso do método, As meditações metafisicas, Os princípios de filosofia, O tratado do homem e o Tratado do mando. Convidado pela rainha Cristina, vai passar uns tempos em Estocolmo, onde morre de pneumonia um ano depois. Suas frases mais conhecidas: "Toda filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica e as ciências os ramos"; "O "bom senso (ou "razão) é o que existe de mais bem repartido no mundo"; "Jamais devemos admitir alguma coisa como verdadeira a não ser que a conheçamos evidentemente como tal"; "A proposição Penso, logo existo é a primeira e mais certa que se apresenta àquele que conduz seus pensamentos com ordem". Toda a obra de Descartes visa mostrar que o conhecimento requer, para ser válido, um fundamento metafísico. Ele parte da "dúvida metódica: se eu duvido de tudo o que me vem pelos sentidos, e se duvido até mesmo das verdades matemáticas, não posso duvidar de que tenho consciência de duvidar, portanto, de que existo enquanto tenho essa consciência. O "cogito é, pois, a descoberta do espírito por si mesmo, que se percebe que existe como sujeito: eis a primeira verdade descoberta para o fundamento da metafísica e cuja evidência fornece o critério da ideia verdadeira. Assim, a metafísica é fundadora de todo saber verdadeiro. [H. Japiassu]

More x Descartes: conclusão do debate

Henry More, é desnecessário dizer, não ficou convencido — um filósofo raramente convence outro. Persistiu, assim, em acreditar "com todos os platonistas da Antiguidade", que todas as substâncias, os anjos, as almas e Deus têm extensão, e que o mundo, no sentido mais literal da palavra, está em Deus, tanto quanto Deus está no mundo. Consequentemente, More enviou a Descartes uma terceira carta, que foi respondida, e uma quarta, que ficou sem resposta.

More x Descartes: Deus e Tempo-Extensão

Se o mundo não existisse, tampouco existiria o tempo. À afirmativa de More de que o intermundium duraria algum tempo, Descartes responde:

Creio que implica contradição conceber uma duração entre a destruição do primeiro mundo e a criação do segundo; pois se referirmos essa duração, ou qualquer coisa de semelhante; à sucessão das ideias de Deus, isso será um erro de nosso intelecto e não uma verdadeira percepção de alguma coisa.

More x Descartes: Deus

Nada disso se aplica a Deus ou a nossas almas, que não são objetos da imaginação, senão de puro entendimento, e que não possuem partes separadas, principalmente partes de tamanho e forma determinadas. A falta de extensão é precisamente a razão pela qual Deus, a alma humana e qualquer número de anjos podem estar juntos no mesmo lugar. Quanto aos átomos e ao vazio, é seguro afirmar que, sendo nossa inteligência finita e o poder de Deus infinito, não nos convém impor-lhe limites.

More x Descartes: Átomos

Em terceiro lugar, Henry More não compreende a "sutileza singular" da negação por Descartes da existência de átomos, de sua afirmação da divisibilidade indefinida da matéria, combinada com a utilização de concepções corpusculares em sua própria física.

More x Descartes: Vazio

A rejeição da identificação cartesiana de extensão e matéria leva naturalmente à rejeição, por Henry More, da negação cartesiana da possibilidade do vácuo. Por que Deus não seria capaz de destruir a totalidade da matéria contida num certo vaso sem que para isso — contrariamente à afirmação de Descartes — suas paredes devessem se juntar? Descartes, com efeito, explica que estar separado por "nada" é contraditório e que atribuir dimensões a espaço "vazio" é exatamente o mesmo que atribuir propriedades ao nada.

More x Descartes: Matéria e Extensão

Tendo assim estabelecido que o conceito de extensão não pode ser usado para a definição da matéria, uma vez que, sendo demasiado amplo, engloba tanto o corpo como o espírito, sendo que ambas as coisas têm extensão, ainda que de maneira diferente (a demonstração cartesiana do contrário parece a More ser não só falsa como puramente sofística), More sugere que a matéria, sendo necessariamente sensível, só deve ser definida por sua relação com sensação, ou seja, pela tangibilidade.

More x Descartes: Corpo-Alma e Extensão

Parece-lhe difícil, por exemplo, compreender ou admitir a oposição radical estabelecida por Descartes entre o corpo e a alma. Com efeito, como é possível a uma alma puramente espiritual, isto é, uma coisa que, segundo Descartes, não tem qualquer extensão, estar unida a um corpo puramente material, ou seja, uma coisa que é feita pura e simplesmente de extensão? Não é melhor supor que a alma, embora imaterial, seja também extensa, que tudo, até Deus, seja extenso? De outra forma, como pode Ele estar presente no mundo?

Assim, More escreve:

More x Descartes: Infinito e Deus

Vimos More defender contra Descartes a infinitude do mundo e até dizer-lhe que sua própria física necessariamente implica essa infinitude. No entanto, é como se, por vezes, ele se sentisse tomado pela dúvida. Ele está perfeitamente seguro de que o espaço, isto é, a extensão de Deus, é infinito. Por outro lado, o mundo material talvez seja finito. Afinal, quase não há quem não acredite nisso. A infinitude espacial e a eternidade temporal são conceitos rigorosamente paralelos, e ambos parecem absurdos. Além disso, a cosmologia cartesiana pode ser conciliada com um mundo finito.