Brun: A Dialética Platônica

Assim, a matemática é uma ciência da medida que nos colocou na via do inteligível. Mas será ela a única ciência da medida? Será ela a ciência da medida? Já no Protágoras (356 e), Platão notava que se devêssemos escolher para a nossa salvação entre o par e o ímpar, necessitaríamos de outra ciência da medida que não aquela que nos permite definir o par e o ímpar, necessitaríamos de uma ciência da medida que nos permitisse medir o par e o ímpar em função da nossa salvação. Uma tal ciência da medida seria uma ciência da Justa Medida capaz de condenar tanto o excesso como o defeito. Mas é sobretudo no Político (283 c e seg.) que a distinção é pormenorizada (Cf. Rodier, Etudes de philosophie grecque, Paris — p. 37: Les mathématiques et la dialetique dans le système de Platon). Platão distingue aí duas ciências da medida (metretike). A matemática, por um lado, que estuda as relações recíprocas — esta arte da medida possui apenas relações de grandeza, dá-nos apenas medidas relativas—; a dialética, por outro, que trata das relações em função da justa medida (pros to metrion) A matemática, de fato, apreende algo do ser, mas isso faz-se como num sonho (oromen os oneirot tousi menrpei to on, Rep., VII, 533 c), pois parte de hipóteses, ou seja, não de suposições, mas de proposições de base, que não justifica; a partir dessas proposições de base encaminha-se para uma conclusão (teleute, Rep., VI, 510 b — Heidegger, Qu'appelle-t-on penser? Paris, 1959, p. 188) mas não regressa ao seu princípio (arche). A dialética, pelo contrário, não procede em direcção a uma conclusão, é antes «a única que, rejeitando sucessivamente todas as hipóteses, se ergue até ao próprio princípio de modo a assegurar solidamente as suas conclusões, a única da qual é verdade dizer que retira pouco a pouco o olho da alma da lama grosseira em que estava enterrado, e o eleva ao alto tendo ao seu serviço e utilizando para tal as artes que enumeramos» (Rep., VII, 533 cd). A dialética trata da geração no sentido da essência (genesis eis ousian, Fil., 26 d, cf. Pol., 283 d). Zeller faz notar que esta expressão é estranha pois não existe nem devir nem geração nas ideias; mas, como muito justamente faz notar Rodier (Etudes de philosophie grecque), também não existe essência no mundo sensível; se Platão fala de uma geração no sentido da essência, é porque qualquer geração tem por fim a ideia, a essência, ou seja, o Bem; na base de qualquer devir está uma finalidade que a dialética tem a responsabilidade de descobrir.

Deste modo, o dialéctico é não só «aquele que atinge o conhecimento da essência de cada coisa» (Rep., VII, 534 b), mas é ainda aquele que, chegado ao coroamento e ao cume de todas as outras ciências, já não vê as coisas e os seres como posicionados uns ao lado dos outros, ou mesmo uns contra os outros, mas possui antes, de todas as coisas, uma visão sinóptica graças à qual tudo lhe surge à luz de uma unidade que não é mais que a do Bem. Assim, «aquele que é capaz de uma visão de conjunto é um dialético; os outros não o são» (o men gar synoptikos dialektikos o de me ou, Rep., VII, 537 c).

Esta dialética compreende dois momentos (cf. Rep., VI, 511 b, e Fedro, 265 d):

a) Uma dialética ascendente (synagoge) que se eleva de ideia em ideia até ao não hipotético, até à Ideia de todas as ideias, ou seja, o Bem, que ultrapassa em majestade e em poder a própria essência e que se mantém portanto para além dela (epekeina tes ousias presbeia kai dynamei Rep., VI, 509 &). A dialética ascendente vai portanto do múltiplo ao uno, de modo a descobrir o princípio de cada coisa, e depois o princípio dos princípios; é ela que Sócrates usa nos diálogos morais.

b) Uma dialética descendente (diairesis) que procura desenvolver, através do poder da razão, as diferentes consequências desse princípio não hipotético sobre o qual tudo repousa, e reconstruir deste modo a série das ideias sem recorrer à experiência. Platão compara desta maneira o dialético com um cortador de talho capaz de dissecar um corpo pelas suas articulações naturais (Fedro, 265 e). A dialética descendente é aquela que podemos encontrar aplicada na República e no Timeu.

Compreende-se assim o que quer dizer Sócrates quando confessa a Fedro: «É por isso, Fedro, que estou quanto a mim muito apaixonado: por essas divisões (diaireseon) e essas ligações (synagogon), tendo em vista ser capaz de falar e de pensar. Para além disso, se julgo ver noutra pessoa uma aptidão para dirigir o olhar na direção de uma unidade e que seja a unidade natural de uma multiplicidade, esse homem, persegui-lo-ei» (Fedro, 266 b).