Morente: Platão: o ser e a unidade.

Excertos de "Manuel García Morente, Fundamentos de Filosofia"

Quem percebeu bem os méritos extraordinários de Parmênides e no mesmo tempo o seu ponto fraco, foi Platão. Sabemos que Platão o Aristóteles representam os dois cumes do pensamento grego. Platão deve uma enorme parte de sua filosofia a Parmênides. Deve também outra parte de sua filosofia a Sócrates. Mas percebeu muito bem o ponto em que a filosofia de Parmênides fraquejava. E numa passagem de O sofista, diálogo de Platão, se diz textualmente que "Parmênides confunde aquilo que é com a unidade do que isso é." Isto é, que Parmênides confunde o que é, ou seja, a existência de algo, com a unidade do que isso é, ou seja, com a unidade das propriedades disso que existe. Confunde, pois, segundo Platão, o existir com o que eu chamo o consistir. Confunde a existência com a essência. Confunde o que mais tarde Aristóteles vai chamar "substância" com aquilo que de substância tem, ou seja, com o que a substância é, com sua essência. Uma essência, não por isto, não por essência, há de existir já. Este erro, que Platão revela e descobre na filosofia de Parmênides, é, com efeito, fundamental. Consiste em confundir as condições formais do pensamento com as condições reais do ser. Assim, Platão está perfeitamente armado para desenvolver com uma amplidão magnífica alguns dos postulados contidos na filosofia de Parmênides e alguns outros que toma do seu trato pessoal com Sócrates. Vou primeiramente tentar fixar com muita brevidade aquilo que Platão deve a Parmênides e o que deve a Sócrates.

Elementos eleáticos no platonismo.

A Parmênides deve Platão três elementos muito importantes de sua filosofia. Deve-lhe em primeiro lugar a convicção de que o instrumento para filosofar, ou seja, o método para descobrir aquilo que vê, quem é o ser, quem existe, não pode ser outro que a intuição intelectual, a razão, o pensamento, o nous, como dizem os gregos. Da Identificação, que faz Parmênides entre o pensar e o ser, recolhe Platão este ensinamento: que o guia, que nos pode conduzir sem falha nem erro através dos problemas da metafísica, é o pensar, é o pensamento. Nosso pensamento é quem deve advertir-nos a cada momento: por aí vai bem; por aí vai mal. O pensamento, na forma de intuição intelectual, é quem nos há de levar diretamente à apreensão do verdadeiro e autêntico ser.

Em segundo lugar, aprende e recebe de Parmênides a teoria dos dois mundos: do mundo sensível e do mundo inteligível. Porque se, efetivamente, a intuição sensível não serve para descobrir o verdadeiro ser, mas antes este há de ser descoberto por uma intuição intelectual, não pelos olhos do rosto, mas pelos interiores do espírito, o espetáculo do mundo, que o mundo oferece aos sentidos, é um espetáculo errôneo, falso, ilusório. E junto, ou defronte, ou em cima, eu ao lado deste mundo sensível, está o outro mundo de puras verdades, de puros entes, de puras realidades existentes, que é o mundo inteligível. Essa divisão em dois mundos recebe-a, também, Platão de Parmênides, e faz uso dela.

E em terceiro lugar, Platão aprende de Parmênides ou de seu discípulo Zenão de Eléia — o autor dos argumentos antes expostos — a arte de discutir, a arte de aguçar um argumento, de polir uma argumentação, de contrapor teses; em suma, essa arte que Platão desenvolve em forma pessoal amplíssima e que leva o nome de Dialética.

São estas as três dívidas fundamentais que tem Platão para com Parmênides.