morphe

Excerto de CAEIRO, António de Castro. A arete como possibilidade extrema do humano. Fenomenologia da práxis em Platão e Aristóteles. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002, p. 288

«O outro modo de considerar a natureza é [...] a figura e a forma, não na medida em que são separáveis da matéria mas na medida em que são tidos em vista segundo o sentido (λόγος, logos)» [Aristóteles, Μetafísica, 193b3-5]. Este modo de ser natureza (φύσις, physis) é mais autêntico do que o modo de ser material [Ibid., 193b7], porquanto, tal como a respeito dos entes em geral, aqueles que estão num estado acabado da sua produção (έντελέχεια, entelecheia) [Ibidem] são considerados mais autenticamente entes do que aqueles que subsistem apenas a título de mera possibilidade (δύναμις, dynamis)1 — o mesmo se verifica nos entes que detêm em si a «origem e a proveniência do processo de transformação» (ἀρχὴ κινήσεως, v. kinesis). A natureza dos entes que são por natureza é a «substância» [Ibid., 1014b36], «a primeira composição» [Ibid., 1014b37]. Por isso é que todos aqueles entes que são ou se produzem por natureza podem ser considerados num estado ainda não acabado, embora a possibilidade de virem a ser esteja já presente neles. Só quando assumem uma forma ou uma figura são considerados aquilo mesmo que são2. A composição de uma matéria e de uma forma é uma natureza completa e acabada. A completude finalizada de um processo de vinda à existência é a substância. «A natureza de cada coisa é uma certa substância» [Física, 193b12-13], enquanto «o que dá completude a um processo de geração» [Ibid., 193b11-12].

  • 1. Ibid., 193b8. Um ente no seu estado natural acabado, ou um artigo fabricado por uma qualquer forma técnica de produção, uma substância concreta (οὐσία), é mais ente do que quando subsiste apenas como mera possibilidade por concretizar.
  • 2. Ibid., 1015a4-8. Aquilo que consiste destas duas coisas é, por natureza, como os animais e as suas partes.