eleutheria

Excerto de [CASSIN, Barbara. Vocabulaire européen des philosophies. Dictionnaire des intraduisibles. Paris: Seuil, 2004, p. 341]

O que é surpreendente no léxico grego da liberdade é, antes de tudo, sua extrema riqueza. À noção fundamental de eleutheria são adicionados, de fato, os adjetivos hekôrt [ἑκών], hekousios [ἑκούσιος] (oposto: akôn [ἄκων]), "voluntariamente", o primeiro referindo-se antes a uma disposição do agente, o segundo ao ato praticado: termo fundamental tanto na tragédia de Eurípides, onde designa o consentimento do herói à morte, que se opõe a uma morte imposta de fora (cf. D. Nestlé, Eleutheria, p. 63-64), e na problemática platônica da chamada falha “involuntária”, segundo a qual “não há um só homem que cometa falhas próprias de próprio grado”(Protágoras, 345e); mas também, no livro III da Ética a Nicômaco, na teoria da decisão (proairesis [προαίρεσις]) e responsabilidade. Mais tarde, a noção de ta eph ’hêmin [τὰ ἔφ’ ἡμῖν] designa, em um contexto estoico, o que depende de nós em oposição ao que é destino; é acompanhado por uma nova palavra, to autexousion [τὸ αὐτεξούσιον], que aparece ao lado de exousia [ἐξουσία] (autoridade, domínio) para denotar mestre de si mesmo. Finalmente, é todo o vocabulário da intenção, do desejo, da aspiração (boulêsis [βούλησις], boulesthai [βούλεσθαι], thelêsis [θέλησις], (e) thelein [(ἐ) θέλειν]), do deliberação (bouleusis [βούλευσις], bouleuesthai [βουλεύεσθαι]) e decisão (hairesis [αἴρεσις], proairesis [προαίρεσις]), que ocorre nas passagens que tenderíamos, desde uma perspectiva moderna, a interpretar uniformemente em termos de "liberdade". No entanto, tal tradução não tende apenas a homogeneizar vários significados e nivelar a riqueza do grego; projeta, além disso, nesses diferentes termos, um esquema interpretativo que decorre inteiramente de uma evolução histórica: corremos então o risco de compreender Platão ou Aristóteles com base em uma problemática medieval ou moderna de libertas inteiramente alheias a seu horizonte filosófico.