demokratia

Excerto de Wolff, F. (1983). Filosofia grega e democracia. Discurso, (14), 7-48. https://doi.org/10.11606/issn.2318-8863.discurso.1983.37901

Diz-se com frequência que, entre outros méritos, Atenas clássica teve o de inventar a filosofia e a democracia. O que é verdade, desde que acrescentemos: não ao mesmo tempo, nem sob a mesma relação.

Não ao mesmo tempo: se considerarmos apenas as datas, pode-se dizer que são as reformas de Clístenes, no início do século V, que assinam o atestado de nascimento da democracia ateniense, e que o desmoronamento do império, ao final deste mesmo século, marca o fim da sua idade de ouro. Quanto à filosofia ateniense, sua idade de ouro começa com a morte de Sócrates, em 399, que marca o fim da idade de ouro da democracia. Isto, certamente, não significa que após o ano de 404 não tenha havido mais democracia em Atenas: bem ou mal ela se mantém até a conquista de Alexandre; mas durante o século IV ela não teve nem o mesmo radicalismo, nem a mesma fé em seu regime. Tampouco significa que antes de Platão e da abertura das múltiplas escolas “socráticas” em Atenas, não tenha havido filosofia na Grécia. Na Grécia, isto é, nas longínquas colônias, mas não em Atenas. E, exceto Sócrates que por ela morreu, não houve antes de Platão nenhum filósofo ateniense — os poucos que tentaram importar sua especulação para a Atenas democrática foram acolhidos com desconfiança e despachados como estrépito1.

Mas o desnível entre filosofia e democracia não é apenas temporal: é como se houvesse, fundamentalmente, desde o início, um imenso mal-entendido. Inteiramente voltada para a política, onde se vale dos velhos princípios dessa moral pragmática — a dos sete sábios, por exemplo — a democracia do século V despreza as vãs pesquisas sobre a “Physis” ou sobre o “Ser”. Estes, por sua vez, não deixam por menos: nenhum dos pré-socráticos se preocupa com política.2 Inversamente, quando o declínio da democracia de Atenas contempla o apogeu de sua filosofia, não vê nenhum democrata entre os grandes filósofos clássicos. Platão não tem palavras suficientemente duras para desqualificar a ditadura da multidão. Aristóteles é, seguramente, muito mais indulgente com as instituições democráticas 3; mas desde que, passando do fato ao direito, examina o Estado, não como é mas como deveria ser, sua “República” não é em nada mais democrática do que a de Platão. Quanto aos raros filósofos anteriores cujos princípios poderiam ser considerados como democráticos, como no caso de Epicuro4, a desconfiança da política faz com que dela afastem a filosofia. A cidade clássica não tinha ipso facto engendrado a filosofia política, mas a morte dessa condenou a outra.

  • 1. É o caso de Anaxágoras, cujo processo por impiedade abre a série dos processos antiintelectuais.
  • 2. Seria talvez preciso excetuar esse falso pré-socrático, que é Demócrito: muitas dentre suas considerações ético-políticas mostram-no defensor da lei e da concórdia. Mas será possível, no atual estado de nossa informação, considerar seus preceitos moralistas como um pensamento político?
  • 3. O texto ‘‘mais democrata" de Aristóteles parece-nos encontrar-se in Pol. III, 1281a 40, 1282a41.
  • 4. A julgar pelos princípios igualitários da vida no Jardim e pelo papel da noção de “isonomia" na Física. (Nós tentamos a aproximação em nossa Logique de l’Élément, Paris, 1981, p. 239.) Pode-se, por outro lado. encontrar traços de uma defesa da vida democrática e das decisões da assembleia livres da influência dos oradores, na Retórica de Epicuro, de acordo com a de Filodemo (frag. 53 Us. = 19. 4 Arr.).