Tillich: thymos

Excerto de TILLICH, Paul. A Coragem de Ser. Tr. Eglê Malheiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 6-7

Na República de Platão coragem se relaciona com aquele elemento da alma que é chamado thymos (o elemento animoso, corajoso), e ambos se relacionam com aquela camada da sociedade que é chamada phylakes (guardiães). Thymos fica entre o elemento intelectual e sensual do homem. É o esforço não pensado em prol do que é nobre. Tendo uma posição central na estrutura da alma, constrói uma ponte por sobre a fenda entre razão e desejo. Pelo menos poderia fazer tal. Realmente, a tendência principal do pensamento platônico e a tradição da escola de Platão eram dualísticas, enfatizando o conflito entre o racional e o sensual. A ponte não foi usada. Já muito mais tarde, como em Descartes e Kant, a eliminação do "meio" do ser humano (o thymoeides) teve consequências éticas e ontológicas. Foi responsável pelo rigor moral de Kant e pela divisão cartesiana do ser em pensamento e extensão. É bem conhecido o contexto sociológico no qual ocorreu esta transformação. Os phylakes platônicos são a aristocracia armada, os representantes do que é nobre e gracioso. Dentre eles surgem os portadores do saber, acrescentando saber à coragem. Mas esta aristocracia e seus valores se desintegraram. O mundo antigo mais recente, tal a moderna burguesia, perdeu-os; em seu lugar aparecem os portadores da razão esclarecida e tecnicamente organizada e massas dirigidas. Porem deve-se notar que o próprio Platão via o thymoeidés como uma função essencial do ser humano, um valor ético e uma qualidade sociológica.