Montet: OUSIA - EIDOS - IDEA

Montet, Danielle (1990), Les traits de l'être. Essai sur l'ontologie platonicienne. Jérôme Millon, Paris.

Segundo Danielle Montet (p. 6) é no mínimo questionável que possa haver sinonímia, banal superposição dos termos “eidos”, “idea” e “ousia’; ao redor dos quais se articula a ontologia platônica. Pesa consideravelmente nesta hipótese absurda uma interpretação/tradução cuja autoridade passou sem questionamento. Que loucura nomotética poderia ter presidido este fabricação de instrumentos conceituais com uso idêntico? Como a arte dialética os pode distinguir? Pois que escândalo há em compreender a “ideia do belo” ou a “ideia do justo” como essência da beleza ou da justiça? Nenhum, senão que as expressões “ideia do belo” ou “ideia do justo” nada mais são que um produto de segunda mão, forjado pela glosa platônica. Por exemplo a questão, para Hipias inaudível, “o que é o belo?” [Hípias Maior 287], não pede como resposta a “ideia do belo” mas: um “eidos”, uma “ideia”. O desvio desta forçação de linguagem já levou o pensamento platônico a platitude dos platonismo. Certamente pensar o belo enquanto “eidos” exige que ele seja distinguido das determinações empíricas nas quais o guarda Hípias; o belo existe em um outro modo que aquele da beleza do cálice ou da jovem, mas não é por conseguinte, aquele do modelo ou do arquétipo. Ora a locução “ideia de” induz uma interpretação paradigmática do “eidos” ou da “idea” e dispõe a essência de uma realidade que só pode pobremente recopiar o sensível. Tal é o leitmotiv das traduções e interpretações de Platão, o recurso comum a todos os platonismos pelos quais a logorreia nomotética exonera de toda exigência dialética. A determinação eidética da essência situa inelutavelmente uma estrutura mimética onde se crê se selar e se desselar toda toda relação autêntica ao texto platônico, o qual inauguraria assim a cisão, doravante assegurada, entre o modelo e a cópia, o ser e a aparência, a essência e o devir. “Essência” do belo, a “ideia” determina uma beleza ideal fixada no céu dos inteligíveis, medida cuja beleza empírica recebe seu limite e aprende sua insuficiência. Essência (ousia) porque modelo, o “eidos” ou a “idea” se oferece assim ao puro olhar do pensamento, tanto mais refinado quanto ele se desvie melhor do devir que o ofusca. A idealidade da essência e a essência da idealidade coincidem na serenidade do modelo e, por longo tempo, programam as figuras do pensamento, em uma lógica impiedosa, na indefectível solidariedade de uma questão de arquétipo e de uma processão mimética da essência. Pensamento do original e original de todo pensamento, Platão se vê assim garantir uma posteridade que não pode se extinguir, infligir uma progenitura que ele talvez não pudesse reconhecer. Pois como escapar à infinita reprodução do modelo onde se consuma a inevitável fecundidade da essência?