Foucault: gnothi seauton

Excerto de FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. Curso dado no Collège de France (1981-1982). Tr. Márcio Alves da Fonseca & Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 4-6

Gostaria então de tomar como ponto de partida uma noção sobre a qual creio já lhes ter dito algumas palavras no ano passado1. Trata-se da noção de "cuidado de si mesmo". Com este termo tento traduzir, bem ou mal, uma noção grega bastante complexa e rica, muito frequente também, e que perdurou longamente em toda a cultura grega: a de epiméleia heautou, que os latinos traduziram, com toda aquela insipidez, é claro, tantas vezes denunciada ou pelo menos apontada2, por algo assim como cura sui3. Epiméleia heautou é o cuidado de si mesmo, o fato de ocupar-se consigo, de preocupar-se consigo, etc. Pode-se objetar que, para estudar as relações entre sujeito e verdade, é sem dúvida um tanto paradoxal e passavelmente sofisticado, escolher a noção de epiméleia heautou para a qual a historiografia da filosofia, até o presente, não concedeu maior importância. É um tanto paradoxal e sofisticado escolher esta noção, pois todos sabemos, todos dizemos, todos repetimos, e desde muito tempo, que a questão do sujeito (questão do conhecimento do sujeito, do conhecimento do sujeito por ele mesmo) foi originariamente colocada em uma fórmula totalmente diferente e em um preceito totalmente outro: a famosa prescrição délfica do gnôthi seautón ("conhece-te a ti mesmo")4. Assim, enquanto tudo nos indica que na história da filosofia – mais amplamente ainda, na história do pensamento ocidental – o gnôthi seautón é, sem dúvida, a fórmula fundadora da questão das relações entre sujeito e verdade, por que escolher esta noção aparentemente um tanto marginal, que certamente percorre o pensamento grego, mas à qual parece não ter sido atribuído qualquer status particular, a de cuidado de si mesmo, de epiméleia heautou? Gostaria pois, durante esta primeira hora, de deter-me um pouco na questão das relações entre a epiméleia heautou (o cuidado de si) e o gnôthi seautón (o "conhece-te a ti mesmo").

A propósito do "conhece-te a ti mesmo", pretendo fazer uma primeira e muito simples observação, referindo-me a estudos realizados por historiadores e arqueólogos. De todo modo, é preciso reter o seguinte: sem dúvida, tal como foi formulado, de maneira tão ilustre e notória, gravado na pedra do templo, o gnôthi seautón não tinha, na origem, o valor que posteriormente lhe conferimos. Conhecemos (e voltaremos a isto) o famoso texto em que Epicteto diz que o preceito "gnôthi seautón" foi inscrito no centro da comunidade humana5. De fato, ele foi inscrito, sem dúvida, no lugar que constituiu um dos centros da vida grega e depois6 um centro da comunidade humana, mas com uma significação que certamente não era aquela do "conhece-te a ti mesmo" no sentido filosófico do termo. O que estava prescrito nesta fórmula não era o conhecimento de si, nem como fundamento da moral, nem como princípio de uma relação com os deuses. Algumas interpretações foram propostas. Há a velha interpretação de Roscher, de 1901, em um artigo do Philologus7, no qual lembra que, afinal, todos os preceitos délficos endereçavam-se aos que vinham consultar o deus e deviam ser lidos como espécies de regras, recomendações rituais em relação ao próprio ato da consulta. Conhecemos os três preceitos. O medèn ágan ("nada em demasia"), de modo algum, segundo Roscher, pretendia designar ou formular um princípio geral de ética e de medida para a conduta humana. Medèn ágan ("nada em demasia") quer dizer: tu que vens consultar não coloques questões demais, não coloques senão questões úteis, reduzi ao necessário as questões que queres colocar. O segundo preceito, sobre os engýe (as cauções)8, significa exatamente o seguinte: quando vens consultar os deuses, não faças promessas, não te comprometas com coisas ou compromissos que não poderás honrar. Quanto ao gnôthi seautón, sempre segundo Roscher, significa: no momento em que vens colocar questões ao oráculo, examina bem em ti mesmo as questões que tens a colocar, que queres colocar; e, posto que deves reduzir ao máximo o número delas e não as colocar em demasia, cuida de ver em ti mesmo o que tens precisão de saber. Interpretação bem mais recente que esta é a de Defradas, de 1954, em um livro sobre Os temas da propaganda délfica9. Defradas propõe outra interpretação, mas que, também ela, mostra, sugere que o gnôthi seautón de modo algum é um princípio de conhecimento de si. Segundo Defradas, estes três preceitos délficos seriam imperativos gerais de prudência: "nada em demasia" nas demandas, nas esperanças, nenhum excesso também na maneira de conduzir-se; quanto às "cauções", tratava-se de um preceito que prevenia os consulentes contra os riscos de generosidade excessiva; e, quanto ao "conhece-te a ti mesmo", seria o princípio [segundo o qual] é preciso continuamente lembrar-se de que, afinal, é-se somente um mortal e não um deus, devendo-se, pois, não contar demais com sua própria força nem afrontar-se com as potências que são as da divindade.

  • 1. As aulas de 1981 não incluem desenvolvimentos explícitos sobre o cuidado de si. Em contrapartida, nelas se encontram longas análises sobre as artes de existência e os processos de subjetivação (aulas de 13 de janeiro, de 25 de março e de 1 de abril). De modo geral, entretanto, o curso de 1981 continua, por um lado, a versar exclusivamente sobre o status dos aphrodísia na ética pagã dos dois primeiros séculos de nossa era e, por outro, mantém a ideia de que não se pode falar de subjetividade no mundo grego, quando o elemento ético se deixa determinar como bíos (modo de vida).
  • 2. Todos os textos importantes de Cícero, Lucrécio e Sêneca sobre estes problemas de tradução estão reunidos por Carlos Lévy em sequência ao seu artigo: "Du grec au latin", in Le Discours philosophique, Paris, PUF, 1998, p. 1145-54.
  • 3. "Se tudo faço no interesse de minha pessoa é porque o interesse que deposito em minha pessoa tudo precede (si omnia propter curam mei fado, ante omnia est mei cura)". (Sénèque, Lettres à Lucilius, t. V, livro XIX-XX, carta 121,17, trad. fr. H. Noblot, Paris, Les Belles Lettres, 1945 [mais adiante: referência a esta edição], p. 78).
  • 4. Cf. P. Courcelle, Connaîs toi-même, de Socrate à Saint Bernard, Paris, Études augustiniennes, 1974, 3 tomos.
  • 5. Épictète, Entretiens, III, 1,18-19, trad. fr. J. Souilhé, Paris, Les Belles Lettres, 1963 [mais adiante: referência a esta edição], p. 8. Cf. a análise deste mesmo texto na aula de 20 de janeiro, segunda hora.
  • 6. Para os gregos, Delfos era o centro geográfico do mundo (omphalos: umbigo do mundo), onde se haviam encontrado as duas águias enviadas por Zeus a partir das bordas opostas da circunferência da Terra. Delfos tornou-se um centro religioso importante desde o fim do século VIII a.C. (santuário de Apoio de onde a Pítia emitia oráculos) e assim permaneceu até o fim do século IV d.C., ampliando então sua audiência para todo o mundo romano.
  • 7. W. H. Roscher, "Weiteres uber die Bedeutung des E [ggua] zu Delphi und die ubrigen grammata Delphika", Philologus, 60,1901, p. 81-101.
  • 8. Esta é a segunda máxima: "engýa, parà d'áte". Cf. a declaração de Plutarco: "Eu não poderei explicar-te, enquanto não tiver aprendido com estes senhores o que querem dizer seu Nada em demasia, seu Conhece-te a ti mesmo e esta famosa máxima, que impediu tantas pessoas de se casar, que tomou outras tantas desconfiadas, e [27] outras mudas: comprometer-se traz infelicidade (engýa, parà d'áte)" (Le Banquet des sept sages, 164b in Oeuvres morales, t. II, trad. fr. J. Defradas, J. Hani & R. Klaerr, Paris, Les Belles Lettres, 1985, p. 236).
  • 9. J. Defradas, Les Thèmes de la propagande delphique, Ibris, Klincksieck, 1954, cap. III: "La sagesse delphique", pp. 268-83.