Ética a Nicômaco (VI, 5) – phronesis (prudência, sensatez)

Excerto de ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. António Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2015, p. 150-152

[1140a24] Poderemos, assim, determinar melhor o que é a sensatez [phronesis] se [25] considerarmos aqueles que nós dizemos serem sensatos. Parece ser sensato aquele que tem o poder de deliberar correctamente acerca das coisas que são boas e vantajosas para si próprio, não de um modo particular, como, por exemplo, acerca daquelas coisas que são boas em vista do restabelecimento da saúde, ou da obtenção de vigor físico, mas de todas aquelas qualidades que dizem respeito ao viver bem em geral. Uma indiciação disto é dada pelo facto de, ao falarmos daqueles que são sensatos, dizermos que são capazes de [30] calcular de modo correcto a forma de chegarem a obter um certo objectivo final sério, fim este que não se encontra entre os produtos de qualquer perícia.

Assim, aquele que delibera é alguém absolutamente sensato. Porque ninguém delibera acerca daqueles entes que não podem nunca ser de outra maneira, nem acerca daquelas coisas sobre as quais não tem o poder de agir. Assim, se o conhecimento científico [35] é capaz de demonstração e se, por outro lado, não há demonstração dos princípios daqueles entes que podem ser de outra maneira (precisamente porque neste horizonte toda a alteração é [1140b1] admissível), e se, finalmente, não é possível deliberar-se acerca daqueles entes que existem por uma necessidade intrínseca, então, a sensatez não pode ser nem um conhecimento científico, nem uma perícia. Em primeiro lugar, não pode ser conhecimento científico porque o que acontece no horizonte da acção [praxis] pode ser sempre de outra maneira. Em segundo lugar, não pode ser uma perícia porque o [5] género da acção é diferente do género da produção [poiein]. Resta, então, que a sensatez seja uma disposição prática de acordo com o sentido orientador e verdadeiro em vista do bem e do mal para o Humano.

O fim da produção é diferente da produção do fim; mas o fim da acção não poderá ser diferente da própria acção. Na verdade o próprio agir bem é um objectivo final. E por este motivo que pensamos que Péricles e outros do mesmo género são sensatos. Porque são capazes de ver as coisas que são boas para si próprios, em [10] particular, e para os homens, em geral. Pensamos que são deste género os peritos em economia e os peritos no bem-estar social.

Daí também empregarmos a designação «sofrosyne» («temperança»), porque se trata da salvaguarda da sensatez1. O que ela salvaguarda é de facto a nossa concepção do bem para nós. De resto, o prazer e o sofrimento não distorcem nem destroem qualquer espécie de concepção, como por exemplo a de que um triângulo [15] tem dois ângulos rectos. Aqueles afectos distorcem e destroem apenas aquelas concepções que dizem respeito ao que pode ser realizado pela acção humana. Ou seja, os princípios das acções humanas são os fins em vista dos quais essas acções são praticadas. Mas a quem tem a lucidez distorcida, pela presença aguda do prazer ou do sofrimento, não aparecerá nenhum princípio de acção, em vista do qual devesse agir ou escolher todos os meios possíveis para o alcançar.

Na verdade, a perversão é intrinsecamente destruidora do [20] princípio da acção, de tal sorte que é necessário que a sensatez seja uma disposição prática conforme a um sentido orientador e capaz de pôr a descoberto o bem humano.

Por outro lado, há certamente uma excelência na perícia, mas não excelência na sensatez. Assim, se na perícia é melhor errar voluntariamente, na sensatez errar voluntariamente é pior, tal como acontece com as restantes excelências. E evidente, portanto, que a sensatez é uma certa excelência e não uma perícia. [25]

Havendo duas partes na dimensão da alma que é capaz de razão, a sensatez é a excelência de uma delas, a saber, daquela que forma opiniões. Porquanto tanto a formação de opiniões quanto a sensatez têm como horizonte de aplicação aquilo que pode ser de outra maneira. Mas certamente a sensatez não é apenas uma disposição de acordo com um princípio racional. Uma indicação disto é que pode haver esquecimento de uma disposição racional, mas 30 não há esquecimento da sensatez.

  • 1. Aristoteles estabelece uma relação entre σωφροσύνη, temperança, e φρόνησις, sensatez, com o étimo grego que perdemos completamente em português: ή φρήν, o diafragma, enquanto a sede da alma, da capacidade perceptiva, do poder da compreensão, o campo de acção das paixões. O que poderá corresponder ao nosso «coração», «ter bom/mau coração», etc.