Ética a Nicômaco (II, 1) – habituação - éthos

Excerto de ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. António Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2015, p. 47

Sendo a excelência [arete] dupla, como disposição teórica [1103a14] [do pensamento compreensivo - διανοητικῆς] e como disposição ética [ἠθικῆς - ethike], a primeira encontra [15] no ensino [διδασκαλίας - didaskalias] a maior parte da sua formação e desenvolvimento, por isso que requer experiência [ἐμπειρίας - empeirias] e tempo [χρόνου - chronos]; a disposição permanente do carácter [ἠθικὴ - ethike] resulta, antes, de um processo de habituação [ἔθους - ethos - morada], de onde até terá recebido o seu nome, «hábito» [ἔθους - éthos], embora se tenha desviado um pouco da sua forma original1. Daqui resulta evidente que nenhuma das excelências éticas [ἠθικῶν ἀρετῶν - ethike areton] nasce connosco por natureza [φύσει - physis]. Nenhum dos entes [ὄντων - onton] que existem a partir da natureza [φύσει - physis] pode ser habituado [20] a existir de outra maneira. Como por exemplo uma pedra. Ela desloca-se naturalmente para baixo e ninguém poderá habituá-la a deslocar-se naturalmente para cima; ninguém a habituaria a isso nem que a arremessasse mil vezes para o alto. E o mesmo a respeito do fogo. Ninguém poderá habituá-lo a tender naturalmente para baixo. Nada do que é constituído naturalmente [physis] de uma determinada maneira poderá ser habituado a ser de outra maneira. As excelências [arete], então, não se geram em nós nem por natureza, nem contra [25] a natureza, mas por sermos constituídos de tal modo que podemos, através de um processo de habituação, acolhê-las e aperfeiçoá-las.

Além disso, tudo o que se constitui em nós depende em primeiro lugar de havermos recebido a sua condição de possibilidade e depois de termos procedido ao seu accionamento. (O mesmo é manifesto no que respeita às percepções. Nós não constituímos a percepção visual ou a acústica apenas por vermos ou ouvirmos [30] muitas vezes, mas, ao invés, é dispondo já das suas condições de possibilidade que as activamos. Quer dizer, mesmo que não as tivéssemos activado, tê-las-íamos desde sempre já à nossa disposição.) É da mesma maneira, então, que adquirimos as excelências. Isto é, primeiramente pomo-las em prática. E assim também que fazemos com as restantes perícias, porque, ao praticar, adquirimos o que procuramos aprender. Na verdade, fazer é aprender. Por exemplo, os construtores de casas fazem-se construtores de casas construindo-as e os tocadores de cítara tornam-se tocadores de cítara [1103b], tocando-a. Do mesmo modo também nos tornamos justos praticando acções justas, temperados, agindo com temperança, e, finalmente, tornamo-nos corajosos realizando actos de coragem. O que acontece com as constituições políticas comprova-o também. Ou seja, os legisladores tornam os cidadãos bons cidadãos habituando-os a agir bem — é este de resto o seu propósito. E todos os [5] legisladores que não tiverem em mente esse propósito erram. É nisto, precisamente, que se distingue uma boa constituição política de uma má. Demais, é a partir do exercício das mesmas actividades e em vista das mesmas qualidades-limite que toda a excelência tanto é gerada quanto é destruída. O mesmo se passa com toda a perícia. Assim, é ao tocar cítara que executantes desse instrumento se tornam virtuosos ou maus. De modo análogo se passa com os [10] construtores de casas e com todos os restantes peritos numa determinada perícia. É ao construir bem uma casa que os construtores se tornam bons construtores, tal como é ao construir mal uma casa que se tornam maus construtores. Se assim não fosse, não precisávamos para nada de um instrutor e todos se tornavam a partir de si próprios bons ou maus a respeito de qualquer actividade. O mesmo [15] acontece com as excelências. Ao agir-se em transacção com outrem, tornamo-nos justos ou injustos. É também ao agir em face de situações terríveis que sentimos sempre medo ou conseguimos ganhar confiança, isto é, que podemos ficar cobardes ou tornamo-nos corajosos. De modo idêntico a respeito das coisas que fazem nascer em nós desejo e ira. Uns conseguem tornar-se temperados e ser gentis [20], outros, porém, tornam-se devassos e são irascíveis. Resulta, então, destas considerações que é a respeito das mesmas situações, que se definem comportamentos contrários, ou seja, que é possível portarmo-nos de modos diferentes. Assim, numa palavra, as disposições permanentes do carácter constituem-se através de acções levadas à prática em situações que podem ter resultados opostos. É por isso que as acções praticadas têm de restituir disposições constitutivas de uma mesma qualidade, quer dizer, as disposições do carácter fazem depender de si as diferenças existentes nas acções levadas à prática. Com efeito, não é uma diferença de somenos o habituarmo-nos logo desde novos a praticar acções deste ou daquele modo.

Isso faz uma grande diferença. Melhor, faz toda a diferença.

  • 1. ἔθος e ἦθος respectivamente «hábito» e «carácter». Um hábito pode ser algo de adquirido (nomen rei actae) ou o processo de aquisição (nomen actionis). Daí se ter preferido a tradução habituação. Cf. Nota da introdução.