Demodocos ou Sobre a deliberação (380a-381a)

[BRISSON, Luc (dir). Platon. Oeuvres complètes. Paris: Flammarion, 2012, p. 298]

Logo, você me convida, Demodocos, para me juntar a vocês para falar sobre os assuntos sobre os quais vocês se reuniram para deliberar. Agora, me ocorreu considerar que significado pode ter seu encontro, a ânsia daqueles que se afiguram os dar seu conselho e o voto1 que cada um de vocês pretende aportar.

Primeiro caso: se não é possível dar um parecer justo e competente sobre as questões a respeito das quais vocês se reuniram para deliberar, como não deixar de ser uma coisa ridícula reunir-se para este fim de deliberar sobre questões sobre os quais não é possível dar um parecer justo? Segundo caso: se é possível dar um parecer justo e competente nestas matérias, sem que haja nenhuma ciência que permita dar um parecer justo e competente, como não deixar de ser absurdo reunir-se para esse fim? Mas se há uma ciência que permite dar um parecer justo sobre estas matérias, não é necessário que haja também pessoas que possuam esta ciência que permite dar um parecer sobre as questões sobre as quais vocês se reuniram para deliberar? Agora, se há pessoas que têm ciência para dar uma opinião sobre as questões a respeito das quais vocês se reuniram para deliberar, não é necessário que estejam vocês mesmos em posse da ciência esperada para dar conselhos ou que não estejam, seja que entre vocês, alguns possuam esta ciência e outros não. Mas se todos vocês estão de posse desta ciência, de que adianta nos reunirmos para deliberar, já que cada um de vocês pode deliberar por sua parte? Se, por outro lado, nenhum de vocês tem essa ciência, como seria possível a vocês deliberar? Qual seria o objetivo de sua assembleia se ela fosse formada por pessoas que não podem deliberar? Agora, se alguns de vocês têm esta ciência enquanto outros não, são estes últimos que precisam de conselhos; e a supor que seja possível a um homem competente aconselhar pessoas incompetentes, basta um só homem para dar um parecer a todos aqueles dentre vocês que não têm esta ciência. Não são estes os mesmos conselhos que darão todos aqueles que têm esta ciência? A partir daí, vocês só têm que o prestar ouvidos, em seguida seguirem. Mas, de fato, não é isto que você faz e, em vez disto, deseja ao invés pôr-se à escuta de um grande número de conselheiros. Com efeito, você não supõe que todos aqueles que empreendem a aconselhá-lo saibam em que se garantir sobre tudo o que é objeto de seus conselhos. Porque se você o supusesse, bastaria você se pôr à escuta de um. Então, querer se reunir para se pôr a escuta de pessoas que não sabem em que se garantir e se imaginar fazendo algo de útil, como não deixar de ser um absurdo? Este é o motivo da minha perplexidade quanto à vossa assembleia.

  • 1. Os interlocutores podem estar na Assembleia, mas não é certo.