Caeiro: kakia

Submitted by mccastro on Sat, 08/12/2018 - 20:34

Excertos de CAEIRO, António. A Areté como possibilidade exterma do humano. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, p. 275-276.

O acontecimento deformador e desfigurador da perversão (κακία, kakia) leva, como vimos, a uma afectação global do sentido da existência humana. Essa crise de sentido experimentada como desorganização (άταξία, ataxia) e desordem (άκοσμία, akosmia) não fica apenas circunscrita ao horizonte da lucidez (ψυχή, psyche) mas alastra à totalidade dos entes, mergulhando-os no caos. Nada permanece intocável. Tudo é excentração extravagante e dispersão. Essa situação resulta da deformação desvirtuadora das possibilidades dadas à partida na existência humana, fazendo que a totalidade dos entes no seu todo1 seja experimentada como uma desorganização intrínseca da sua ordem constitutiva.

A perversão (κακία) que afecta especificamente a lucidez (ψυχή) é experimentada como perda da organização (τάξις, taxis) e da ordem (κοσμία, kosmia), isto é, como esboroamento das condições sine qua non a partir das quais o humano pode apropriar-se de uma forma autêntica das suas possibilidades de vida. Se a perda da potencialidade de um instrumento, de um artefacto ou de uma árvore não levam a uma desorganização da totalidade dos entes no seu todo, por outro lado, a presença da perversão (κακία) na lucidez (ψυχή) humana conduz a uma perturbação no modo como a totalidade dos entes é habitualmente experimentada, sendo a lucidez (ψυχή) a forma onde radicam todas as formas de abertura aos entes em geral. A perturbação da relação [275] estrutural entre o humano e todos os demais entes no seu todo é provocada pela modificação da lucidez (ψυχή) levada a cabo pela perversão (κακία).

Mas podemos ser mais específicos. A perversão (κακία) que afecta a lucidez (ψυχή) no seu todo e os restantes entes é concretizada como um impedimento estrutural à compreensão do sentido do horizonte da situação humana (πραξις, praxis), enquanto núcleo de sentido onde radica a existência humana, isto é, o plano fundamental que dá compreensão aos entes no seu todo. É assim pela perda da «excelência humana» (ανθρώπινη άρετή, anthropine arete) e não pela perda da «excelência específica de cada coisa» (αρετή έκάστου, arete ekastou), que todos os entes sem excepção mergulham na «impossibilidade da comunhão» [Gór., 507e5] que mantém em conjunto [Cf. Gór., 508a1] tudo em geral. A organização (τάξις) e a ordenação (κοσμία) dão lugar à desorganização (άταξία, ataxia) e à desordem (άκοσμία).

  • 1. Pese embora o facto de, noutros domínios de ser, se poder dar a presença de uma desvirtuação que só destrói esse âmbito específico de sentido. Por exemplo, o facto de uma casa ser inabitável, de uma faca cortar mal, não aponta por si só para um prejuízo que nos arruine a existência.