Agostinho (T:X.7.9-X.7.10) – natureza da mente

Excerto de AGOSTINHO. De Trinitate. Livros IX - XIII. Tr. Arnaldo do Espírito Santo / Domingos Lucas Dias João Beato / Maria Cristina Pimentel. Covilhã, 2008, p. 73-75

[Falsas opiniões dos filósofos acerca da substância da mente.]

X. 7. 9. Por conseguinte, quando a mente considera que é uma coisa dessas, considera que é um corpo.

Mas porque [a mente] tem plena consciência da sua supremacia, com a qual governa o corpo, resultou daí que alguns1 procurassem saber que parte do corpo tem no corpo maior valor, e considerassem que era a mente ou, genericamente, toda a alma. Deste modo, consideraram uns que a mente fosse o sangue, outros, o cérebro, outros, o coração - não no sentido em que a Escritura diz: Louvar-te-ei, Senhor, de todo o meu coração2; e ainda: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração3; isto é dito, de facto, desviando ou transpondo este vocábulo, ‘coração’, do corpo para o espírito4 -, mas consideraram que era exactamente aquela pequena parte do corpo que se vê ao dissecar as entranhas. Acreditaram outros que a mente é formada pelo concurso e aglomeração de pequeníssimos e indivisíveis corpúsculos, a que chamam átomos. Alguns afirmaram que a sua substância é ar, outros, que é fogo. Eram outros de opinião de que a alma não é uma substância, porque não podiam pensar uma substância que não fosse corpo, e não achavam que ela fosse corpo, mas o próprio equilíbrio do nosso corpo ou a união dos elementos primordiais com que esta carne como que é articulada. E todos eles consideraram que é mortal, porque, fosse ela corpo, fosse um composto corpóreo, não podería, evidentemente, permanecer imortal. Mas aqueles que acharam que a sua substância é uma vida sem nada de corpóreo, dado que a vida anima e vivifica todo o corpo vivente, tentaram logicamente demonstrar, do modo que cada um pôde, que também é imortal, porque a vida não pode carecer de vida. Daquele não sei [74] que quinto corpo5, de que alguns, associando-o aos bem conhecidos quatro elementos deste mundo, afirmaram ser formada a alma, não me parece que deva discorrer aqui demoradamente; de facto, ou chamam corpo àquilo a que nós chamamos corpo, cuja parte é, no espaço, menor que o todo, e há que contá-los no número daqueles que acreditaram que a mente é corpórea; ou, se chamam corpo quer a toda a substância quer a toda a substância mutável, sabendo embora que ela não é contida toda no espaço, por qualquer comprimento, largura e altura, não há que discutir com eles questões de palavras.

[O erro resulta do facto de que, quando a mente se pensa a si mesma, agrega a si algo que lhe é estranho.]

X. 7. 10. Em todas estas opiniões, cada um vê que a natureza da mente, por um lado é substância, e por outro lado não é corpórea, isto é, que não ocupa com uma parte menor de si um menor lugar no espaço, nem um maior lugar com uma parte maior; ao mesmo tempo é importante que se perceba que aqueles que consideram que a mente é corpórea não erram pelo facto de carecerem de conhecimento da mente, mas porque acrescentam coisas sem as quais não podem pensar natureza alguma; efectivamente, sem recurso às imagens dos corpos, consideram absolutamente inexistente o que quer que se lhes venha a pedir que pensem, e, por isso, a mente não deve procurar-se a si mesma como se faltasse a si mesma. O que é que está tão presente ao conhecimento como aquilo que está presente à mente, ou que há de tão presente à mente como a própria mente? Daí que, se examinarmos a origem da palavra que designamos por invenção, que outros ecos nos recorda senão que encontrar [inuenire] é ir ao encontro [in id uenire] daquilo que se procura? É por isso que habitualmente não se dizem encontradas as coisas que nos ocorrem à mente como que espontaneamente, embora possam ser ditas conhecidas, porque, ao procurá-las, não tendíamos para elas para irmos ao encontro delas, ou seja, para as encontrarmos. Por isso, do mesmo modo que aquelas coisas que são procuradas pelos olhos ou por outro qualquer sentido do corpo é a própria mente que as procura - de facto é ela que dirige também os sentidos da carne e, quando os mesmos sentidos vêm ao encontro daquilo que se procura, é também ela que então encontra - assim também, quando vai ao encontro daquelas coisas que deve conhecer, não pela intermediação de um sentido corporal, mas por ela mesma, encontra-as quer na substância superior, isto é, em Deus, quer nas outras partes da alma, como quando ajuíza das próprias imagens dos corpos; ela encontra-as, de facto, impressas no íntimo da alma por intermédio do corpo.

  • 1. Cf. Cícero, Tusculanae Disputationes, I, 9, 18 - 11, 22.
  • 2. SI 9: 2; 110, 1; 137, 1.
  • 3. Dt 6:5; Mt 22:37; Mc 12:30; Lc 10:27.
  • 4. Agostinho refere-se ao recurso estilístico da catacrese (abusio) e da metáfora (translatio).
  • 5. Em De ciuitate Dei, XXII, 11, Agostinho atribui a Aristóteles a afirmação de que a alma é um “quinto corpo”. Terá havido aqui um entendimento errôneo da natureza da “quinta essência” que Aristóteles refere em De Coelo, I 3, 270 b 22; II, 3, 302 b 4, e em De Mundo 1, 392 a 5 - b1; 5, 396 b 28? Agostinho leu uma obra De Mundo de Apuleio de Madaura (cf. De Ciuitate Dei, IV, 2), a qual, pensa-se, era uma “adaptação” para latim de um De Mundo pseudo-aristotélico.