Agostinho (T:X.8.11-X.9.12) – gnothi seauton

Excerto de AGOSTINHO. De Trinitate. Livros IX - XIII. Tr. Arnaldo do Espírito Santo / Domingos Lucas Dias João Beato / Maria Cristina Pimentel. Covilhã, 2008, p. 75-77

[Como é que a mente se há-de analisar a si própria.]

X. 8. 11. De que modo a mente se procura a si mesma e se encontra, para onde se dirige para procurar, e até onde vai para encontrar, constitui uma singular questão. Que há, de facto, tão presente à mente como a própria mente? Mas, porque está naquilo em que pensa com amor e com amor se habituou às coisas sensíveis, isto é, corporais, não consegue estar em si mesma sem a imagem delas. Surge daqui o seu degradante erro de não conseguir separar de si as imagens das coisas sensíveis para se ver a si sozinha; ligaram-se, de facto, pelo laço de um amor extraordinário. E esta é a sua impureza, porque, ao tentar pensar em si sozinha, julga ser aquilo sem o qual não se pode pensar a si mesma. Quando, pois, lhe é ordenado que se conheça a si mesma, não se deve procurar como se fosse separada de si, mas deve separar de si aquilo que a si acrescentou1. Com efeito, ela está mais dentro de si [76] não só do que os objectos sensíveis, que estão declaradamente fora, mas também do que as imagens deles, que estão naquela parte da alma que até os animais têm, apesar de privados da inteligência que é própria da mente. Apesar de estar mais no seu interior, a mente, de algum modo, sai de si mesma quando exterioriza a afeição do seu amor para com essas imagens, que são uma espécie de vestígios de múltiplas atenções. Estes vestígios como que se imprimem na memória quando as coisas corpóreas, que estão fora, são percebidas pelos sentidos de modo que, mesmo quando estão ausentes, estejam as suas imagens disponíveis para aqueles que nelas pensam. Conheça-se, pois, a si mesma e não se procure a si mesma como ausente, mas fixe em si a atenção da vontade com que vagueava pelas outras coisas e pense em si mesma. Verá então que nunca deixou de se amar, que nunca deixou de se conhecer, mas que, ao amar outra coisa juntamente consigo, se confundiu com ela e, de algum modo, cresceu com ela, e assim, abraçando várias coisas como uma só, pensou que essas várias coisas são uma só.

[A mente conhece-se no próprio facto de entender o preceito de se conhecer.]

X. 9. 12. Assim, não procure ver-se como ausente, mas cuide de distinguir-se como presente. Nem se conheça como se não se conhecesse, mas distinga-se daquilo que conhece como realidade distinta de si2. De facto, como há-de dar cumprimento àquilo que ouve: “conhece-te a ti mesma”3, se ignora o que seja “conhece” ou o que seja “a ti mesma”? Mas se conhecer uma e outra coisa, conhece-se a si também, porque não é dito à mente: “conhece-te a ti mesma”, do mesmo modo que lhe é dito: ‘conhece os Querubins e os Serafins’; pois destes, que estão ausentes, cremos, conforme se ensina, que são Potestades celestes; nem como é dito: ‘conhece a vontade daquele homem’, vontade que de nenhum modo temos à nossa disposição para a sentir nem para a entender senão pela manifestação de sinais exteriores, e isto de modo a que mais acreditemos do que entendamos; nem do mesmo modo que se diz a um homem: ‘vê a tua face’, coisa que apenas pode fazer num espelho. Efectivamente a nossa face está fora do alcance da nossa vista, porque não está num ponto para onde possa a vista dirigir-se. Mas quando se diz à mente: “conhece-te a ti mesma”, no instante em que compreende o que lhe é dito: “a ti mesma”, a si mesma se conhece, e por nenhuma outra razão que não seja o facto de estar presente a si mesma. Mas se não entende o que foi dito, de modo nenhum o faz. Ordena-se-lhe, pois, que faça aquilo que faz quando compreende a própria ordem.

  • 1. Cf. Cícero, Tusculanae Disputationes I, 16, 38.
  • 2. Cf. Cícero, Tusculanae Disputationes I, 22, 52.
  • 3. No frontão do templo do deus Apolo, em Delfos, no centro da Grécia, à guisa de acolhimento e admonição dos visitantes, estava escrito: “Conhece-te a ti próprio” (gnôthi seauton). Assim, antes do oráculo privado para aqueles que consultavam a Pitonisa, todos os visitantes recebiam da divindade o mandamento essencial do auto-conhecimento. Um dia, um amigo de Sócrates, Querofonte, foi consultar o oráculo para saber quem era o homem mais sábio de Atenas (cf. Platão, Apologia, 20 d -21 e). A resposta indicou Sócrates, que se considerava a si mesmo o mais ignorante dos seus concidadãos. Certo do seu lema “só sei que nada sei” e querendo assim infirmar o oráculo, Sócrates começa a interrogar os políticos, os poetas e os artesãos da cidade. Verifica, com espanto, que eles não sabem nada do que dizem saber, não sabem que não sabem e, por isso, não se conhecem a si mesmos. Nasce daqui o núcleo da filosofia socrático-platónica (cf. Cármides, 164 d - 165 a; Fedro, 229 e): antes de conheceres qualquer coisa, “conhece-te a ti próprio”. Como podes pretender conhecer algo, se antes não te conheceres a ti próprio? (sobre a autognose, cf. Agostinho, De Beata uita, 2, 7; Soliloquia, 2, 1; Contra Academicos, III, 11, 26; Confessiones, X, III, 3; XIII, xi, 12; Sermo 137, 4; Sermo 22, 1, ab Angelo Mai editi).