Agostinho (T:X.5.7-X.6.8) – conhecer e pensar

Excerto de AGOSTINHO. De Trinitate. Livros IX - XIII. Tr. Arnaldo do Espírito Santo / Domingos Lucas Dias João Beato / Maria Cristina Pimentel. Covilhã, 2008, p. 71-72

X. 5. 7. Então porque se lhe preceitua [a mente] que se conheça a si mesma? Em minha opinião, para que pense em si e viva segundo a sua natureza, isto é, para que anseie ocupar a ordem que lhe cabe segundo a sua natureza, ou seja, debaixo daquele a quem deve estar submetida, e acima das coisas a que deve antepor-se; debaixo daquele por quem deve ser governada, acima das coisas que deve governar. Efectivamente, como que esquecida de si, faz muitas coisas levada por uma ambição desregrada. De facto, vê coisas intrinsecamente belas numa natureza superior, que é Deus. E quando devia parar para fruir delas, ao pretender atribuí-las a si e, considerando-se semelhante a Deus não por obra dele, mas por si própria, ao pretender ser aquilo que ele é, afasta-se dele, desvia-se e cai no menos e no menos que julga ser o mais e o mais, porque nem ela se basta a si, nem nada basta a quem se aparta daquele que é o único que basta. E, por isso, por sua indigência e por sua dificuldade, entrega-se excessivamente às suas acções e aos desassossegados deleites que nelas colhe; e assim, pelo desejo de adquirir conhecimentos das coisas exteriores, cujo gênero, conhecido já, ama, e sente que podem ser perdidas se não forem guardadas com grande esforço, perde a segurança e pensa tanto menos em si quanto mais segura está de que não pode perder-se.

[72] Assim, sendo uma coisa não se conhecer e outra não se pensar a si mesma - de facto não dizemos que alguém, perito em muitos saberes, desconhece a gramática quando não pensa nela porque, de momento, está a pensar em medicina - embora, como disse, uma coisa seja não se conhecer e outra não se pensar a si mesma, a força do amor é de tal modo grande que arrasta consigo aquelas coisas que a mente pensou com amor durante muito tempo e a que se ligou com o vínculo da dedicação, quando de algum modo voltou para si para se pensar a si mesma. E uma vez que são corpos aquelas coisas que, pelos sentidos da carne, amou exteriormente e com as quais se envolveu numa espécie de laços de prolongada familiaridade, e não pode levar consigo esses mesmos corpos para o seu íntimo, como que para uma região de natureza incorpórea, enrola e leva consigo as imagens deles criadas em si mesma e a partir de si mesma. De facto, ao formá-las, comunica-lhes algo da sua substância; mas preserva alguma coisa com que livremente ajuíze da natureza dessas imagens. E isso é propriamente a mente, isto é, a inteligência racional que é guardada para julgar. Pois nós sentimos que temos em comum até com os animais aquelas partes da alma que recebem a forma das imagens dos corpos.

X. 6. 8. Mas a mente erra, quando se une com amor tão grande a essas imagens a ponto de considerar que também ela é da mesma natureza. Recebe de certo modo a mesma forma que elas, não sendo isso, mas pensando-o, não porque se pense como imagem, mas porque se pensa precisamente como aquilo cuja imagem tem consigo. Nela subsiste, efectivamente, a faculdade de distinguir o corpo que deixou fora da imagem que dele traz consigo, a não ser quando essas mesmas imagens se apresentam como se fossem sentidas exteriormente e não pensadas interiormente, tal como costuma acontecer a quem está a dormir ou a quem delira ou em algum êxtase1.

  • 1. Cf. Agostinho, Enarrationes in psalmos, 30, 2, 1; 67, 36; 115, 3; De Genesi ad litteram, XII, 12, 25.