Agostinho (T:X.10.13-X.12.15) – a certeza e a dúvida da mente

Excerto de AGOSTINHO. De Trinitate. Livros IX - XIII. Tr. Arnaldo do Espírito Santo / Domingos Lucas Dias João Beato / Maria Cristina Pimentel. Covilhã, 2008, p. 77-80

[Toda a mente sabe ao certo de si mesma três coisas: que entende, que é, e que vive.]

X. 10. 13. Portanto, não deve acrescentar outra coisa ao facto de se conhecer a si própria, quando ouve dizer que se conheça a si própria. Sabe seguramente que é a si que é dito, isto é, a si que é, e vive, e compreende. Mas também o cadáver é e o animal vive; mas nem o cadáver nem o animal entendem. Deste modo, pois, sabe que é e que vive tal como é e vive a inteligência.

[78] Portanto, quando, por exemplo, a mente se julga ar, julga que o ar compreende, sabe no entanto que ela compreende; ela não sabe que é ar, mas julga que é ar. Afaste o que se julga, atente no que sabe; fique-lhe aquilo de que não duvidaram nem sequer aqueles que consideraram que a mente era corpo de uma qualquer natureza1. E nem toda a mente considera que é ar, mas algumas consideram-se fogo, outras cérebro, e outras um corpo, outras outro, como acima mencionei; todas, porém, conhecem que compreendem, e que são, e que vivem, mas reportam o compreender àquilo que compreendem, ao passo que o ser e o viver reportam-no a si mesmas. E ninguém tem dúvida de que alguém que não viva não compreende, e alguém que não seja não vive. Na sequência disto, portanto, aquilo que compreende não só é, mas também vive, não como o cadáver, que não vive, é, nem como a alma, que não entende, vive, mas de um modo próprio, que é um modo superior. Sabem também todas as mentes que têm querer, e sabem igualmente que isso não é possível a quem não seja e a quem não viva, mas também essa vontade a referem a alguma coisa que querem com essa vontade. Sabem também que recordam, e sabem, ao mesmo tempo, que ninguém se recordaria se não fosse e não vivesse, mas referimos também essa mesma memória a qualquer coisa que por meio dela recordamos. Em duas destas três coisas, pois, na memória e na inteligência, estão contidos o conhecimento e a ciência de muita coisa; e está presente a vontade pela qual podemos fruir ou usar delas. Efectivamente, fruímos das coisas conhecidas, nas quais repousa a vontade, deleitando-se nelas em razão de si mesma; mas usamos daquelas que referimos a outra coisa de que devemos fruir. Não há vida humana viciosa e culpável senão a que usa mal e frui mal: não é esta a ocasião nem este o lugar para tratar dessa matéria.

[Quem duvida, vive.]

X. 10. 14. Mas, porque se trata da natureza da mente, afastemos da nossa reflexão todos os conhecimentos que se colhem exteriormente por meio dos sentidos do corpo e prestemos atenção mais diligente ao que afirmámos: que todas as mentes têm conhecimento de si mesmas e estão certas disso. Os homens tiveram dúvidas sobre se a faculdade [vis] de viver, recordar, compreender, querer, pensar, saber, ajuizar, é própria do ar ou do fogo, ou do cérebro, ou do sangue, ou dos átomos, ou, além dos quatro elementos habituais, de um quinto elemento de não sei que corpo, ou se a estrutura ou a constituição da nossa própria carne conseguem realizar todas essas operações, sendo cada um desses homens levado a afirmar, um, uma coisa, outro, outra coisa. Haverá, porém, alguém que duvide de que vive, e recorda, e compreende, e quer, e pensa, e sabe, e ajuíza? Pois se duvida, vive; se duvida, recorda-se de onde provém a sua dúvida; se duvida, compreende que duvida; se duvida, quer ter a certeza; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida, ajuíza que lhe não convém dar irreflectidamente o seu consentimento. Quem, pois, duvida seja do que for não deve duvidar de todas estas coisas, porque, se elas não existissem, não poderia duvidar de nenhuma delas2.

X. 10. 15. Os que consideram que a mente é um corpo, ou é a estrutura ou constituição de um corpo, pretendem que todas essas coisas sejam vistas como existindo num sujeito, de forma que o ar, ou o fogo, ou outro qualquer corpo que consideram mente seja a substância, ao passo que a inteligência está nesse corpo como qualidade inerente, de modo que o corpo seja o sujeito e as outras coisas existam no sujeito, a saber, o sujeito é a mente, que eles consideram ser um corpo, enquanto a inteligência ou cada uma das coisas que mencionámos, que para nós constituem uma certeza, estão no sujeito. Próxima desta opinião, está também a daqueles que negam que a mente seja um corpo, afirmando que é estrutura ou constituição do um corpo. A diferença está no facto de uns dizerem que a mente é a substância na qual, como num sujeito, está a inteligência; outros, pelo contrário, afirmam que a própria mente está no sujeito, ou seja, no corpo de que ela é estrutura ou constituição [80]. Na sequência disto, com que fundamento consideram a inteligência como algo distinto daquilo que está no corpo enquanto sujeito?

[Quando a mente se conhece a si mesma, conhece a sua substância.]

X. 10.16. Nenhum deles atenta em que a mente se conhece também quando se busca, como já demonstrámos. Ora, de nenhum modo se afirma com segurança que se conhece uma coisa enquanto se ignora a sua substância. Por isso é que, conhecendo-se a si, a mente conhece a sua substância e, quando tem a certeza de si, tem a certeza da sua substância. De si tem a certeza, conforme prova o que acima foi dito. E de modo nenhum tem a certeza se é ar, ou fogo ou qualquer outro corpo ou parte de um corpo. Logo, não é nenhuma dessas coisas. E tudo quanto lhe for ordenado para se conhecer a si própria se reconduz a isto, a que tenha a certeza de não ser nenhuma dessas coisas em relação às quais não tenha certeza, e que tenha a certeza de ser apenas aquilo que tem a certeza de apenas ser. E assim, pensa no fogo ou no ar e pensa em qualquer outra coisa corpórea, e de nenhum modo seria possível que pensasse aquilo que ela própria é da mesma maneira que pensa aquilo que ela própria não é. Com uma representação imaginária pensa, de facto, em todas estas coisas, no fogo, no ar, neste ou naquele corpo, numa parte, na estrutura e constituição de um corpo, mas, em qualquer caso que seja, não se diz que a mente é todas estas coisas em conjunto, mas apenas alguma delas. Ora, se fosse alguma destas coisas, haveria de pensar nela de modo diferente das outras, isto é, não pelo recurso à representação imaginária, como são pensadas as coisas ausentes que são alcançadas pelos sentidos do corpo, trate-se delas mesmas ou de outras do mesmo gênero, mas por meio de uma presença interior, não simulada, mas real - nada, de facto, lhe é mais presente do que ela própria - do mesmo modo que pensa que vive, e recorda, e compreende, e quer. Conhece estas coisas de facto em si, e não as imagina como se as tocasse fora de si pelos sentidos, como se tocam quaisquer objectos corpóreos. Se não afeiçoa a si mesma nenhuma destas representações de modo a considerar que é alguma dessas coisas, o que quer que de si lhe fique é isso apenas o que ela é.

  • 1. Cf. Cícero, Tusculanae Disputationes, I, 22, 53; 28, 70 - 29,71.
  • 2. Cf. Agostinho, De ciuitate Dei, XI, 26.